A Demonologia no Novo Testamento

A Demonologia no Novo Testamento

Abordagem Bíblica

Novo Testamento

O Novo Testamento não apresenta nenhuma especulação sobre os nomes dos demônios, sua hierarquia, seu habitat, sua natureza ou mesmo seu pecado.

As duas tradições que se encontravam no Judaísmo tardio sobre o pecado dos anjos:

1ª) Expulsos do céu por se terem revoltado contra Deus: por terem querido igualar-se a Deus, (conforme Henoc 29 – apócrifo), ou por terem recusado homenagem a Adão (conforme a “Vida de Adão e Eva”, cc 13,16 – apócrifo)

2ª) Seduzidos pela beleza das filhas dos homens (Henoc cc 6,7,15, com a interpretação de Gn 6,1-4) parecem ter deixado algum traço no N.T.: a primeira em Apc 12 e talvez em Lc 10,18; a segunda talvez em Jud 6.

Mas trata-se de simples alusões de passagem. O certo é que, sob nomes variados, o N.T. pretende falar de um mesmo personagem expressamente identificado com a Serpente do Gênesis: “o grande dragão, a antiga Serpente, aquele que se chama Diabo e Satanás” (Apc 12,9; cf. Jo 8,44; l Jo 3,8; 2 Cor 11,3). Do mesmo modo as narrações dos Sinóticos falam indiferentemente, na parábola do semeador, de Satanás (Marcos), do Maligno (Mateus) ou do Diabo (Lucas); noutros lugares trata-se do “Inimigo” (parábola da cizânia), do “Tentador” (Mt 4,3), de Beelzebul, príncipe dos demônios (nome explicitamente atribuído aos judeus: Mc 3,22; Mt 9,34; 10,25; 12,24-27; Lc 11,15-19).

Às apelações comuns de Satanás, Diabo, Maligno (2Ts 3,3; Ef 6,16), Tentador (1Ts 3,5), S. Paulo acrescenta um nome próprio, Belial, que é a designação habitual do Diabo entre os Judeus (2Cor 6,15). Enfim, como em Jó e Zacarias, Satanás conservou a função de Acusador dos eleitos no tribunal de Deus (Apc 12,10; 1Pd 5,8).

Além disso, o N.T. considera Satanás como “o príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16-11), o “deus deste século” (2Cor 4,4) fazendo assim menos oposição entre Satanás e Deus, que entre o Reino de Satanás e o Reino de Deus, como já se podia entrever em Gn 3,15 e como o supunha a noção judaica de dois “mundos” ou duas “eras”.

Ao reino de Satanás, que coincidia com a era anterior ao Messias (cf. At 26,18; Gl 1,4, etc.), Jesus vem substituir o Reino de Deus (Mt 3,2 etc.; Jo 3,3-5; Rm 14,17, etc.) que é também o seu Reino (Mt 13,41 etc.; Jo 18,36; Gol 1,13; Ef 5,5). É para destruir as obras do Diabo que o Filho de Deus se manifestou (Jo 3,8).

  1. a) O adversário de Cristo

Desde a primeira confrontação entre o homem e Satanás, podia-se prever que a humanidade vencida um dia triunfaria de seu Adversário (Gn 3,15). De fato, a vitória do homem sobre Satanás constitui o próprio fim da missão de Cristo que vem “reduzir à impotência aquele que tinha o império da morte, o Diabo” (Hb 2,14), Cristo veio “destruir suas obras” (l Jo 3,8), isto é substituir o reino de Satanás com o Reino de seu Pai (1Cor 15, 24-28; Col 1,13s). Por isso os Evangelhos apresentam sua vida pública como um combate contra Satanás.

A luta começa com o episódio da tentação, no qual pela primeira vez depois da cena do paraíso, um homem representando a humanidade, “filho de Adão” (Lc 3,38) se encontra face a face com o Diabo. A luta afirma-se pelas libertações de possessos, prova de que “o Reino de Deus chegou” (Mc 3,22ss) e que o reino de Satanás está no fim (cf. Lc 10, 17-20); isso se manifesta também pelas curas de simples doentes (cf. At 10,38). A luta prossegue também, dissimulada, no afrontamento que opõe Cristo aos judeus incrédulos, verdadeiros “filhos do Diabo” (Jo 8,44; cf. Mt 13,38), esta “raça de víboras” (Mt 3,7ss; 12,34; 23,33). Ela atinge seu máximo na hora da Paixão.

Desde o princípio da vida pública, logo após a investidura messiânica do batismo, o primeiro ato de Cristo é um confronto com Satanás: “Jesus foi conduzido pelo “Espírito” ao deserto para ser tentado pelo Diabo” (Mt 4,1). A narração da tentação de Cristo reveste na tradição sinótica uma importância excepcional.

Ao Cristo que está para começar sua carreira, apresenta-se uma opção crucial: ele deve escolher entre os “caminhos de Deus”, “estupidez para os pagãos e escândalo para os judeus” (1Cor 1,23) e “os outros caminhos”, aparentemente mais razoáveis, que Satanás lhe propõe. Com efeito, para ser proclamado Messias por uma multidão entusiasta, bastaria algum prodígio retumbante, do gênero daqueles que prometiam os mágicos da época, que atraíam o povo para o deserto anunciando que às suas ordens as águas do Jordão se abririam e os muros de Jerusalém se desmoronariam.

Fazer esses prodígios seria ir ao encontro das expectativas dos judeus sempre à procura de um “sinal do céu” (Mt 12,38ss; 16,1ss; cf. Jo 6,30ss) e forçá-los a reconhecer em Jesus aquele “Filho do Homem” misterioso que devia vir “sobre as nuvens do céu” (Dn 7,13; cf. Mt 26,64, etc.) o qual porém não poderia identificar-se com o oriundo de Nazaré (cf. Jo 6,42; 7,27 ).

Desde a “Tentação”, Jesus toma partido contra um messianismo de prestígio pela ostentação de poderes sobrenaturais. Sem dúvida Cristo multiplicará os milagres, mas em benefício dos outros, nunca em benefício próprio (cf. At 10,38) e nunca ao ponto de violentar as consciências; o signo decisivo que ele proporá, será o “signo de Jonas” (Mt 12,38ss; 16,lss), o sinal de sua própria morte, prova de amor por excelência, e de sua ressurreição, prova suprema de todo poder, mas que não terá nenhuma testemunha direta, e à guisa do banquete dos tempos messiânicos, é a si mesmo que ele oferecerá, seu corpo e sangue, como único “pão da vida” (Jo 6,30-58).

A tática do Diabo já nos é bem conhecida. Como no Paraíso, ele está presente como amigo, como conselheiro e seus conselhos não revelam a princípio nenhuma intenção maligna: nada mais legítimo do que dar a seu corpo o alimento do qual ele tem necessidade; quanto a lançar-se do alto do pináculo do templo, seria um ato heróico de confiança na Providência e além do mais, extraordinariamente apto para incutir a convicção nas multidões.

Somente que para estabelecer o Reino de Deus só se pode escolher os meios de Deus. É necessário submeter-se inteiramente à sua Vontade, mesmo que ela conduza “até a morte e morte de cruz” (Fl 2,8). Por isso, a única resposta de Cristo é um duplo apelo à Palavra de Deus: duas citações evocando ambas as “tentações” do Povo de Israel durante a sua estadia de quarenta anos no deserto (Dt 8,2-3 e 6,16; cf. Ex 16,4 e 17,2).

A firmeza de Cristo obriga Satanás a desmascarar-se: “Se caíres a meus pés e me adorares…” Desmascarado, ele está perdido: entre Satanás e Deus o “Filho de Deus” não pode hesitar. Jesus responde por uma citação tirada do mesmo capítulo do Deuteronômio (6,13), formulando o primeiro mandamento da religião de Israel: “Adorarás o Senhor teu Deus e a ele só prestarás culto!” Seria ilusão pretender estabelecer o Reino de Deus de outro modo que não “o caminho do abandono a Deus. na humildade e no abandono absoluto à sua vontade.

Vencida como por antecipação na cena da “tentação” esta luta entre o demônio e Jesus vai desenrolar-se no decurso a vida pública de Cristo até a Cruz e glorificação. Jesus vai “proclamar o Reino de Deus” não somente por sua pregação, mas também pela cura dos doentes e a libertação dos possessos. A catequese primitiva quase não distingue entre as duas categorias de prodígios.

Resumindo toda a vida de Jesus, S. Pedro dirá simplesmente: “Sabeis como Deus ungiu com o Espírito Santo e com poder Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos aqueles que estavam escravizados pelo Diabo” (At 10,38). Na mentalidade judaica a doença corporal era “o efeito e o sinal de uma servidão às potências do mal”. A mulher encurvada de Lc 13,11-17, para a qual Jesus não praticou nenhum exorcismo, estava, contudo “ligada por Satanás há 18 anos” (Lc 13,16). Sem pretender que toda doença seja efeito de um pecado pessoal, afirmando até exatamente o contrário, Jesus percebe, contudo numerosos laços de semelhança e de dependência entre o mal físico e o espiritual.(cf. Lc 13,2-5; Jo 5,14; 9,2-3).

Por conseguinte, os milagres de cura não significam somente que seu autor é o Messias esperado (Mt 11,4-5 e Lc 7,21-22) ou que ele tem o poder de perdoar os pecados (Mc 2,10), ou mesmo que Jesus é o único “Salvador” (At 4,9 e 12).

Esses milagres inauguram a “salvação” libertando o homem da tirania do Diabo; “eles são o Reino de Deus em ação”.[2] O mesmo se dá na libertação de possessos descritos nos Sinóticos (Mc 1,23ss; 5,1ss; 7,24ss; 9,17ss). A expulsão dos demônios é por si mesma uma prova de que o Reino de Deus chegou (Mc 3,22-30); os discípulos recebem o mesmo poder como sinal de sua missão (Mc 6,7ss e par.; 16,17) e à sua volta Jesus contempla a queda de Satanás (Lc 10,17-20).

  1. b) A paixão e Satanás

Mas é por sua morte que Jesus deveria “reduzir à impotência aquele que tinha o império da morte, o Diabo” (Hb 2,14). S. Lucas conscientemente aproximou a hora da tentação com a hora da Paixão (4,13 e 22,23): hora na qual Satanás redobra a atividade, inspirando Judas (Lc 22,3; Jo 13,2.27) e insidiando os apóstolos que ficaram fiéis (Lc 22,31).

  1. Paulo exprime o pensamento comum atribuindo a morte de Cristo essencialmente a ações dos demônios, “príncipes deste século” (1Cor 2,8s). De novo Cristo triunfa da “tentação” por um ato de submissão total à vontade do Pai (Mc 14,35-36 e par.); “Satanás nada pode contra ele” (Jo 14,30); sua morte é um puro ato de amor e obediência a seu Pai (Jo 14,31; cf. Flp 2,8; Rm 5,19; Hb 5,8). Por isso essa é a hora na qual o “príncipe deste mundo é lançado fora”, o império do mundo que ele ousava outrora oferecer a Jesus (Lc 4,6) pertence agora ao Cristo morto e glorificado (Mt 28,18; cf. Fl 2,9).

O combate de Cristo contra Satanás atinge seu máximo na hora da Paixão. Conscientemente Lucas relaciona a Paixão com a Tentação (Lc 4,13; 22,53) e João salienta o papel de Satanás (Jo 13,2.7; 14,30; cf. Lc 22,3.31) precisamente para proclamar sua derrota final. Satanás parece dirigir os acontecimentos, mas na realidade “não tem poder algum sobre Cristo”; tudo é obra do amor e da obediência do Filho (Jo 14,30). No momento exato no qual se julga certo da vitória, o “Príncipe deste mundo” é “precipitado” (Jo 12,31) e o império do mundo que outrora tinha ousado oferecer a Jesus (Lc 4,6) pertence agora a Cristo morto e glorificado.

  1. c) O adversário dos cristãos

A ressurreição de Cristo consagra a derrota de Satanás. O combate, porém só acabará, afirma S. Paulo, com o último ato da “história da Salvação”, no “Dia do Senhor”, quando o “Filho, tendo reduzido à impotência todo Principado, toda Potestade e a própria Morte, entregar seu Reino ao Pai, a fim de que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15, 24-28).

Por conseguinte, como Cristo, o cristão também encontrará o “Adversário” no seu caminho. Deve tomar parte na vitória de Cristo por um ato de sua liberdade pessoal, vale dizer, a vida cristã será concebida, do mesmo modo que a vida de Cristo, como uma luta com o demônio, luta que prosseguirá até a Parusia.

O N.T. nos ensina a detectar por detrás dos obstáculos materiais ou humanos, a presença de uma potência que se serve dos homens, assim como se serviu de Judas e dos magistrados judeus e romanos para crucificar o Cristo. Essa potência camuflada é Satanás.

É Satanás quem impede S. Paulo de ir a Tessalônica (1Ts 2,18). E o aguilhão espetado na carne do Apóstolo, obstáculo a seu apostolado, é “um mensageiro de Satanás” (2Cor 12,7-10). O cristão deve “revestir a armadura de Deus” porque ele tem de lutar não contra as forças simplesmente humanas, “a carne e o sangue”, mas “contra os Principados, contra as Dominações, contra os Soberanos deste mundo de trevas, contra os Espíritos do mal espalhados nos ares” (Ef 6,12).

A doutrina de forma alguma é exclusiva de S. Paulo. Jesus já tinha mostrado o “inimigo”, o Diabo, semeando cizânia no campo do pai de família (Mt 13,39) e Lucas acrescenta, revelando a intenção perversa do Diabo: “para impedir que eles creiam e sejam salvos” (Lc 8,12). S. Pedro representa o Diabo como “um leão faminto, que rodeia sem cessar em torno dos fiéis procurando a quem devorar” (1Pd 5,8).

Como no Paraíso terrestre, o demônio é o “tentador”, esforçando-se por induzir os homens ao pecado (1Jo 3,8; l Cor 7,5) opondo-se assim ao próprio Deus (At 5,3-4; cf. 1Ts 3,5).

Por detrás da potência personificada que pode ser chamada de “o Pecado”, Paulo supõe ordinariamente a ação de Satanás, pai do pecado (comparar Rm 5,12 com Sb 2,24; Rm 7,7 com Gn 3,13). Por detrás da ação maligna do Anticristo aqui na terra está em ação o poder de Satanás.

Aqui a ação de Satanás é interior e se exerce no coração do homem. Ela tende a se confundir com nossas próprias tendências. Daí a dificuldade em discernir uma da outra; mas assim como o N.T. não fala quase de espírito sem evocar a pessoa do Espírito Santo, assim também parece que não fala do pecado sem supor a ação do Diabo, pai do pecado. Isto não parece ser duvidoso, sobretudo quando S. Paulo personifica o Pecado, entendendo com isso não a simples concupiscência carnal, mas aquela tendência radical pela qual o homem, em vez de se ordenar a Deus, ordena tudo a si mesmo.

É este “pecado” que introduz a morte no mundo (Rm 5,12; cf. Sb 2,24, onde se trata do Diabo) e que serve do preceito para seduzir o homem, exatamente como a Serpente do Gênesis (Rm 7,7). Concluir destas passagens que Satanás é para o Apóstolo uma pura personificação das forças do mal seria contradizer o conjunto da doutrina bíblica e paulina.

Com efeito, para o N.T., como, aliás, para o judaísmo contemporâneo, o pecado provém ao mesmo tempo do Diabo e do homem que se deixou seduzir pelo Diabo: cedendo ao pecado, o homem passa ao poder do Diabo (Ef 4,27), torna-se “filho do Diabo” e realiza suas obras (Jo 8,41.44; l Jo 3,8 e talvez Mt 13,38 ).

O pecado, com efeito, torna servo de Satanás: Todo aquele que comete pecado é um escravo” (Jo 8,34). Como o cristão é filho de Deus, assim o pecador é “filho do Diabo, pecador desde o início”… Desde o início o Diabo foi homicida… (Jo 8,34)… Homicida, ele o foi infligindo a morte ao homem (cf. Sb 2,24) e também inspirando a Caim matar seu irmão (1Jo 3,12-15); e hoje ainda o é inspirando aos judeus matar aquele que lhes disse a verdade: “Vós quereis matar-me, a mim que vos digo a verdade que ouvi de Deus… Vós fazeis as obras de vosso pai e quereis realizar seus desejos” (Jo 8,39-44).

Neste mesmo sentido se deve entender a noção joanina de “mundo” enquanto designa “o conjunto dos homens que recusam a Deus e cujo chefe é Satanás (cf. Jo 1,10; 7,7; 15,18s; 17,9.16 e 1Jo 3,1.13) Em 1Jo 5,19s, vemos que o mundo inteiro está sob o poder do “Maligno” e se opõe aos cristãos que estão na “verdade”

Por detrás dos pecados individuais, S. João percebe a presença da realidade misteriosa que os gera: uma potência de hostilidade a Deus e a seu Reino, com a qual Cristo se confronta pessoalmente.

A morte de Cristo foi uma vitória sobre o “Príncipe deste Mundo”, Jesus venceu o mundo (Jo 16,33). Esse pensamento é encontrado também nos Sinóticos (Mt 18,7) e também em S. Paulo (1Cor 2,12; 11,32; 2 Cor 7,10

Tal é precisamente o destino trágico do cristão que deve necessariamente escolher entre Deus e o demônio, entre Cristo e Belial (2 Cor 6,14s), entre o “Maligno” e o “Verdadeiro” (1Jo 5,19s), e no juízo final estará para sempre com um ou outro destes Senhores (Mt 25,34-41).

Quanto à tática de Satanás com os cristãos, ela não difere daquela que ele tinha em vão ensaiado contra Cristo, mas que no Paraíso terrestre lhe saíra muito bem. “Desde a origem ele é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44); “espírito enganador” (1Tm 4,Is), “ele camufla-se em anjo de luz” (2 Cor 11,14); S. Paulo fala de suas ciladas (1Tm 3,7; 6,9; 2Tm 2,26), de suas manobras (Ef 6,11), de seus engodos (2 Cor 2,11). É de noite que o inimigo semeia o joio (Mt 13,25). “Príncipe das trevas” ele foge da luz do dia (2Cor 6,14; Ef 6,12; cf. L1Ts 5,5; Rm 13,12; bem como Jo 3,19; 8,12; 12,35s, etc.).

A luta prosseguirá até ao fim do mundo, e redobrará de intensidade com o aproximar-se da Parusia (Mt 24,23-24; Lc 18,8; 2Ts 2,9; 1Tm 4,Is; 1Jo 2,18; Apc 20,3.7ss). Mas por mais temível que seja seu poder sobre os fiéis o demônio não deixa de ser um inimigo já vencido; por si só o cristão sucumbiria, mas por Cristo ele participa já de sua vitória.

Por isso Jesus convida seus apóstolos à oração (Mt 26,41), sustentando-os, aliás, com sua própria oração (Lc 22,32; cf. Hb 7,25) e nos faz pedir na oração dominical de ser preservados contra o “Maligno” (Mt 6,13). Cristo não permitirá que sejamos tentados além de nossas forças (2Ts 3,3; l Cor 10,13). A vitória definitiva aparece no horizonte (Rm 16,20); num certo sentido, o cristão já a conseguiu, porque ele está seguro do Senhor (1Jo 2,13): também S. Paulo revela sem cessar a fé de seus correspondentes na “fidelidade do Senhor” (2Ts 3,3; l Cr 1,9; 10,13) como S. Pedro (1Pd 5,9); ele os exorta a “ter sempre na mão o escudo da fé, graças ao qual eles poderão extinguir todos os dardos inflamados do Maligno” (Ef 6,16).

Numa palavra, só será vencido o que consentir e quiser ser derrotado (Tg 4,7; cf. Ef 4,27). S. Paulo está tão certo da proteção divina sobre os cristãos que ele pode falar de “entregar um culpado a Satanás” como uma pena medicinal destinada a constranger o pecador ao arrependimento que lhe propiciará a salvação (1Cor 5,5; l Tm 1,20).

  1. d) Satanás no Capítulo 12 do Apocalipse

A revelação bíblica conclui-se com o Apocalipse que nos oferece, sobretudo a partir do capítulo 12 uma síntese do ensinamento bíblico sobre este Adversário contra o qual, desde a origem (Apc 12,9) até ao termo da história da Salvação, a humanidade deve combater. Retomando e completando a narração do Gênesis, apresenta com extraordinária concisão e profundidade o papel do demônio na história da Salvação desde os primórdios até a escatologia.

  1. João descreve o drama humano-divino em todas as suas fases, com todos seus elementos visíveis e invisíveis. Antes de descrever o combate que vai pôr em confronto a Igreja e a Fera, símbolo do Anticristo em quem se encarna o mistério do mal, nos ensina que esta luta gigantesca não é na realidade senão a última fase e como que o desenvolvimento no tempo de um outro combate que dá ao drama humano suas verdadeiras dimensões.

Ao mesmo tempo ele nos revela de antemão o resultado vitorioso, algo parecido com o que ele faz antes de abordar o início da Paixão recordando a segurança triunfal de Cristo: “Tende confiança, eu venci o mundo” (Jo 16,33).

A visão comporta três fases descritas em quadros sucessivos que se recobrem parcialmente.

1ª fase: Uma primeira fase passa-se na terra; a luta concentra-se entre Satanás e Cristo. Um Dragão com sete cabeças, coroadas de sete diademas prepara-se para devorar o filho, aparentemente indefeso, que a Mulher misteriosa, vestida de sol e coroada de doze estrelas vai dar à luz nas dores do parto; mas no momento no qual o monstro crê ter sua presa esta lhe escapa, “levada junto de Deus e de seu trono”; alusão manifesta à morte, ressurreição e ascensão do Cristo, três momentos de um mistério único que o Quarto Evangelho designa também com uma expressão única: a “glorificação” do Cristo.

2ª fase: A segunda fase, paralela no tempo à primeira ou mesmo anterior, dá a sua explicação: ficamos sabendo que o Dragão, explicitamente identificado com a “antiga serpente, se chama Diabo e Satanás” (12,9) e como o Acusador de Jó e Zacarias (12,10) é um revoltado e um vencido: “um combate no céu” o opôs a Miguel e a seus anjos que o “lançaram para baixo, sobre a terra”

  1. João não especifica o motivo desta revolta, mas o contexto sugere que o filho, objeto de ódio do Dragão, não pode ser alheio a isso; pelo menos é o que sugere a tradução judaica consignada no livro apócrifo “a Vida de Adão e Eva”, cc 13-16: “por ocasião da criação de Adão, enquanto Miguel e seus anjos aceitavam ‘prestar homenagem a imagem de Deus, Satanás recusa honrar um inferior’ e se vê ‘despojado de sua glória e banido sobre a terra’.” Para S. João não seria Cristo esta perfeita imagem de Deus, esboçada em Adão, à qual Satanás teria recusado suas homenagens?

3ª fase: A terceira fase, como as duas precedentes, termina com a derrota do Diabo, “vencido por Miguel, vencido por Cristo, ele se lança em guerra contra o resto de sua descendência” (12,17), mas o resultado é a derrota final do Diabo “lançado no abismo e encadeado por mil anos” (20,3), finalmente “precipitado no lago de fogo e de enxofre, onde estão também a Fera e o Falso Profeta, são torturados dia e noite por toda a eternidade” (20,I0).

“Impotente diante da Mulher e daquele que ela dá à luz (Apc 12,5s) Satanás voltou-se contra o resto de sua descendência (12,17); mas a aparente vitória que lhe valem os prestígios do Anticristo (13-17) culminará com a vitória definitiva do Cordeiro e da Igreja, sua esposa (18-22): com a Besta e o falso profeta, com a Morte e o Hades, com todos os homens que tiverem sucumbido a suas astúcias, Satanás será lançado no lago de enxofre ardente, o que é a “segunda” morte” (Apc  20,10.14s).

  1. e) A Virgem Maria, a Mulher vestida de sol.

Ao terminar este breve estudo sobre o papel de Satanás na História da Salvação, é preciso fazer uma alusão significativa sobre a função de Maria a esse respeito no contexto do Apocalipse. Se a Mulher misteriosa do capítulo 12 do Apocalipse designa não somente a Igreja, mas a própria Mãe do Messias, a Virgem Maria em pessoa, nova Eva, que acaba no Calvário o parto doloroso do Cristo e dos cristãos — foi por sua cruz e ressurreição que o Cristo foi estabelecido em todo seu poder (Rm 1,4) — percebemos então que lugar ímpar ocupa a Santa Virgem no conflito desencadeado entre o cristão e Satanás. De qualquer modo, é com a vitória definitiva de Deus e de seu Cristo que se fecha a Revelação da Bíblia sobre o demônio.

 

Autor: Ministério de Formação Paulo Apóstolo

 

[2]L.De Grandmaison, in “Jésus – Christ”

*Imagem: http://3.bp.blogspot.com/-RqUvcJyLlOU/T9qqLVmiqXI/AAAAAAAAAH0/cOgIVaFib9M/s1600/dark-night-full-moon.jpg


 

Bibliografia

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Comunidade Javé Nissi