Batismo no Espírito na práxis da Renovação Carismática

Batismo no Espírito na práxis da Renovação Carismática

Batismo no Espírito na práxis da Renovação Carismática

1. A Missão do Espírito Santo

Deus está em todas as suas criaturas pelo seu poder, pela sua presença e por sua essência. Nem todas, porém, são capazes de o alcançar, nomeando-o, amando-o. Somente as criaturas espirituais, pela graça de Deus, podem atingi-lo, e é missão do Espírito Santo conceder esse dom que permite à criatura “tocar” a Deus, nele mesmo, por um conhecimento de amor.

Essa missão não introduz nenhuma mudança em Deus, mas inaugura algo que, não podendo ser em Deus, é na alma que é habitada pelas três Pessoas divinas. Dizer que habitam em nós, ou que as recebemos ou possuímos, é dizer que nos transformam, que iluminam o nosso entendimento e inflamam o nosso coração, imprimindo em nós os traços da sua semelhança. “A quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12).

Desde toda a eternidade, o envio do Espírito Santo estava nos planos de Deus, e para esse fim ordenou todas as coisas, visto que a salvação consiste na aceitação desse Espírito para sermos verdadeiramente filhos de Deus e discípulos de Cristo. “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não lhe pertence” (Rom 8,9).

A habitação do Espírito Santo no homem, torna-o participante da natureza divina, habilitando-o a gozar da presença das Pessoas divinas em si, e aperfeiçoando nele a imagem de Deus, que só atingirá a sua perfeição na glória.

O dom do Espírito Santo não foi apenas feito aos apóstolos e à Igreja, mas a cada um dos fiéis. É um dom oferecido gratuitamente, e a ser apropriado por cada um na medida do seu amor e da sua fé. A medida da nossa santificação pessoal, e, nosso engajamento efetivo na Missão conferida pelo Senhor, é a medida da nossa fidelidade ao Espírito Santo. Ser fiel ao Espírito Santo é ser fiel ao Espírito de Cristo.

O Espírito age no cristão, podemos dizer, de duas maneiras: o santifica produzindo nele seus frutos – testemunho de santidade para o mundo –, e capacita-o para o anúncio do Evangelho com Seus carismas.

O Espírito Santo habita em nós (1Cor 3,16), é o nosso hóspede, sempre pronto a nos esclarecer, amparar, fortificar. Ele nada força, espera a nossa cooperação, a nossa adesão, para nos fazer conhecer o Pai e o Filho, para nos fazer penetrar no mistério de Cristo, para nos dar o verdadeiro “espírito de adoção filial pelo qual chamamos a Deus: Papai!” (Rom 8,15), E ainda vem “em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que devemos pedir como nos convém; mas o próprio Espírito implora por nós com gemidos inexprimíveis” (Rom 8,26).

O Espírito Santo leva-nos a Jesus; faz-nos Jesus, transformando-nos n’Ele. É essa a sua obra; ninguém pode conformar-se com Jesus senão na unidade do Espírito Santo. É este o ciclo divino na santificação das almas: ninguém pode ir ao Pai a não ser por Jesus; ninguém pode ir a Jesus a não ser pelo Espírito Santo. (cf. Ef 2,18)

2. Pentecostes: o Cumprimento da Promessa

Passados alguns dias de Sua ressurreição, Jesus cheio do Espírito Santo, cumpriu sua promessa: enviou do céu a torrente do Espírito sobre seus discípulos que estavam em oração com sua mãe Maria. Conta o livro dos Atos dos Apóstolos capítulo 2, versículos 1 a 4.

Se o batismo na água marcou o princípio da missão evangelizadora de Cristo, a inauguração da era messiânica, propriamente dita, da manifestação do “Filho de Deus” aos “filhos de Deus”, o batismo no Espírito Santo, em Pentecostes, marcou a instauração do reino de Deus sobre a terra, pelo seu Espírito. É o estabelecimento de uma nova vida espiritual, vida da graça, princípio e penhor, já neste mundo, da vida da glória, na eternidade. Era chegada a hora da adoração que o Pai quer, a verdadeira adoração, “em espírito e em verdade” (Jo 4,23).

É a consumação e a coroação do grande mistério da Páscoa, a sua plenitude, no dizer de Santo Agostinho (Sermão 43). Assim, Pentecostes não é somente a festa do Espírito Santo, mas de Cristo, fechando um capítulo da História da Salvação, e abrindo outro, pelo Seu Espírito. Podemos dizer também que é a grande “festa de aniversário da Igreja”, o natal do Espírito Santo.

Pentecostes não foi apenas um acontecimento da Igreja nascente, Pentecostes continua e é ainda hoje: “e rogarei ao Pai e ele vos dará um outro Paráclito para que convosco permaneça para sempre” (Jo 14,16). Fundada a Igreja de Cristo, espalhou-se por toda a terra, animada pelo Espírito Santo.

Pentecostes continua incessantemente pela ação interior do Espírito. Permanecem a graça e a virtude de um Pentecostes perene, embora o Pentecostes histórico tenha passado. A ação universal do Espírito não deixa por isso de ser sempre fecunda. Quando celebramos a festa de Pentecostes, não recordamos um mistério passado, um acontecimento longínquo, mas a presença continuada do Espírito Santo na sua Igreja, como celebra a liturgia do dia: “… por meio de Cristo Senhor nosso, que tendo subido aos céus, derrama hoje o Espírito Santo que havia prometido” (Prefácio da Missa de Pentecostes). Está na nossa mão o pedir e o receber.

Pentecostes não foi outra coisa senão Cristo glorificado, cheio do Espírito Santo, que abriu seu coração para derramar seu Espírito sobre os seus e assim transformá-los em novas criaturas. Tão generosa e abundante, porém, foi a doação do Espírito que o próprio Jesus havia chamado de “Batismo no Espírito Santo”. Batizar significa submergir, estar totalmente inundado, cheio. O Batismo no Espírito Santo em Pentecostes foi uma plenitude do Espírito Santo que inundou os Apóstolos de tal forma que os encheu completamente.

3. Batismo no Espírito Santo, uma experiência definida

A expressão “batismo no Espírito Santo” possui dois sentidos e distingue de maneira precisa dois momentos na vida do fiel. O primeiro é propriamente teológico e neste sentido todo cristão é batizado no Espírito Santo pelo fato de ter recebido os Sacramentos da iniciação cristã[1]. O segundo é o sentido experiencial e se refere ao momento em que a presença do Espírito Santo recebida pela fé se torna experiência vivida desta mesma presença, ou seja, se torna sensível à consciência pessoal. Quando, na RCC se fala no batismo no Espírito Santo, se refere a essa experiência sensível e consciente que é o sentido experiencial.

No livro dos Atos, quando do aparecimento de Jesus ressuscitado aos seus Apóstolos diz a eles que serão batizados no Espírito (Atos 1,5). Promessa realizada plenamente em Pentecostes.

Pentecostes inaugura um novo regime para a vida do homem em relação a Deus e aos irmãos: saímos do regime da lei e entramos no regime do Espírito. A experiência de Pentecostes constitui, de uma certa forma, o parâmetro para a experiência que chamamos na Renovação Carismática de batismo no Espírito Santo. Experiência narrada também em outros textos dos Atos dos Apóstolos e sempre acompanhada de manifestações de ordem carismáticas, como louvor, línguas, profecias (Atos 2,4; 10,46; 19,6).

O batismo no Espírito Santo é uma experiência definida (“como podem ver e ouvir” – Atos 2,33) que introduz à vida no Espírito, e que realiza em nós uma mudança permitindo que experimentemos Sua presença e operação em nós.

O que é, então, ser batizado no Espírito? Talvez a descrição mais clara seja dizer que no batismo no Espírito, o Espírito vem de um modo que a pessoa batizada o sabe. Como resultado desta vinda, ela experimenta um novo contato com Deus. Não só o Espírito vem à pessoa de um modo novo, mas opera nela uma mudança. A sua vida se torna diferente, porque o seu relacionamento com Deus se modificou. Deus está nela de uma maneira que não estava antes. Deus fez nela a sua morada de um modo novo.

Como resultado da transformação que o Espírito Santo realiza na pessoa, ela começa a experimentar a presença de Deus. Conhece a Deus como nunca, por uma experiência. Também experimenta o Espírito Santo agindo nela de um modo novo. O Espírito guia-a, fala-lhe, ensina-lhe, fá-la conhecer a Deus e saber que Deus a ama.

O batismo no Espírito é uma introdução, um princípio para a vida no Espírito. O que torna possível a vida no Espírito numa pessoa é a presença do Espírito Santo nela. Portanto, a única maneira de experimentar a vida no Espírito é o Espírito Santo estar nela de um modo novo.

Esta experiência é um princípio. É preciso continuar viver a vida no Espírito, crescer. Esta “vida nova” deve ser partilhada, portanto, exigindo a comunidade fraterna que envolve-nos em um novo relacionamento, um mútuo dar e receber do dom do Espírito, que está em todos.

O batismo no Espírito é uma introdução à vida do Espírito, e também uma introdução na comunidade cristã. Necessitamos de uma comunidade que viva no Espírito para vivermos também no Espírito. O batismo no Espírito não é somente um modo de entrar numa vida nova com o Espírito, mas deveria significar também a entrada numa comunidade. (Cor 12-13)

4. É Jesus quem batiza no Espírito Santo

Quando os judeus, no dia de Pentecostes, viram os primeiros cristãos, que acabavam de ser batizados no Espírito, e ouviram a explicação de Pedro sobre o que acontecera, perguntaram: “Que devemos fazer?” É essa a nossa pergunta: Como devemos fazer?

A pregação de Pedro era a proclamação do querigma que se resume na afirmação: Jesus Cristo é o Senhor! Por isso podemos receber o Espírito Santo. Porque Ele morreu, ressuscitou e “exaltado pela direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo, objeto da promessa, e o derramou. É isto que vedes e ouvis” (Atos 2,33)

Desta forma São Pedro afirmava que Jesus realiza Sua missão profetizada por João Batista: ”depois de mim vem o mais forte do que eu, a quem não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das sandálias. Eu vos tenho batizado com água. Ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo” (Mc 2,7-8).

O próprio Jesus revelou que Ele daria o Espírito Santo àqueles que quisessem ter uma vida nova quando no “último dia da festa, que é o mais solene, de pé, disse em alta voz: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, de seu seio jorrarão rios de água viva”. (Jo 7,37-38). São João Evangelista acrescenta com um comentário revelador: “Ele falava do Espírito que deviam receber os que nele cressem” (Jo 7,39).

Portanto é Jesus quem batiza no Espírito Santo. É a Ele que devemos ir se desejamos ser batizados no Espírito Santo. Os que querem o Espírito Santo e a vida nova que ele traz têm que ir ao Senhor Jesus.

No dia de Pentecostes, São Pedro assegurou que o Espírito Santo era para todos. O Senhor quer que todos sejam batizados no Espírito: “… A promessa é, de fato, para vós, assim como para todos os vossos filhos e para todos aqueles que estão longe, todos quantos foram chamados por Deus nosso Senhor” (At 2,39).

Esta primeira pregação Apostólica se inicia com a citação da profecia de Joel, onde o Senhor Deus revela que derramará de Seu Espírito sobre toda a carne, sobre escravos e escravas, sobre jovens e anciãos. (cf. Atos 2, 17-18)

A pessoa que quer ser batizada no Espírito não tem um papel passivo. A sua parte é vir ao Senhor para ser batizado no Espírito. A oração com a imposição das mãos não é um substituto para esse “voltar-se” para o Senhor. É apenas um auxílio, e, se a pessoa não se volta para o Senhor para receber d’Ele o Espírito, não será batizada no Espírito.

A condição necessária, portanto, para que a pessoa possa receber esse batismo no Espírito, é simplesmente estar voltada para Jesus, como sendo Ele o Senhor, o Salvador, o que batiza. A instrução que Pedro deu aos judeus no dia de Pentecostes foi:

“Convertei-vos e seja cada um de vós batizado em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos pecados, e recebereis então, o dom do Espírito Santo” (At 2, 38).

A condição, portanto, é estar “no Senhor”, voltar-se para Cristo. Nessas condições, Ele pode batizar-nos no Espírito. Algumas pessoas são batizadas no Espírito anos depois de terem aceitado Cristo como seu Salvador, porque ainda não tinham voltado suas vidas completamente para Ele. Não tinham aceitado Jesus como Senhor.

A conversão é um processo que se completa na eternidade, aqui se trata de um desejo ardente e sincero de entregar a vida a Jesus, é estar disposto a aceitá-Lo verdadeiramente como Senhor, é “dobrar os joelhos” diante de seu Nome. (cf. Fl 2,10-11) É estar disposto a obedecê-Lo, pois somente aos obedientes Ele dá de Seu Espírito. (cf. Atos 5,32)

Este desejo ardente de ser batizado no Espírito deve ser semelhante aos daqueles, que ouvindo o Evangelho anunciado por Pedro, sentiram os corações abrasados. (cf Atos 2,37)

Mas, seja como for, a condição que nos qualifica para receber o batismo no Espírito é “estar no Senhor”.

Pedir com fé em oração

O Espírito Santo é dado pela oração. Os Apóstolos reunidos com Maria, Mãe da Igreja e nossa, aguardavam o cumprimento da Promessa em oração. (cf. Atos 1,14)

Uma vez que a pessoa pertença ao Senhor, pode rezar para receber o Espírito. Só tem que ter fé, isto é, deve pedir simplesmente, com sede do Senhor (Jo 7, 37), sabendo que ele quer que ela seja batizada no Espírito e está lhe oferecendo a oportunidade. São Lucas escreve:

“Por isso eu digo a vós: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Na verdade, todo aquele que pede recebe; e quem procura encontra; e ao que bate abrir-se-á. E, qual é o pai entre vós, que, se seu filho lhe pedir um pão, dar-lhe-á uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, em vez de um peixe dar-lhe-á uma serpente? Ou ainda, se pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, portanto, sabeis oferecer coisas boas a vossos filhos, quanto mais o Pai celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem”. (Lc 11, 9-13)

Portanto, o que é preciso é pedir com fé para ser batizado no Espírito. Deus está ansioso por conceder. De fato, Deus o deseja mais do que nós mesmos. Quer que O recebamos porque nos ama e quer viver em nós pelo seu Espírito. Temos apenas que vir a Ele e receber d’Ele essa dádiva.

Pode haver o batismo no Espírito sem o auxílio de qualquer cristão. O Senhor mesmo, que é quem batiza, e o Espírito Santo, são tudo o que é essencial. Muitas pessoas oraram a sós para receber o Espírito, e foram batizadas n’Ele sem outro auxílio. Mas isso não é o comum, sendo mais difícil ser batizado no Espírito sozinho, porque o Senhor quer que façamos parte de uma comunidade. Na Igreja primitiva, o modo comum como os cristãos ajudavam alguém a receber o Espírito era pela oração com a imposição das mãos.

5. A oração com imposição das mãos

Na Igreja primitiva, o modo comum como os cristãos ajudavam alguém a receber o Espírito era pela oração com a imposição das mãos.

Os samaritanos tinham recebido a fé e sido batizados, mas não tinham recebido o Espírito Santo. Pedro e João, enviados até a Samaria, impõe as mãos sobre eles e assim recebem o batismo no Espírito Santo. (cf Atos 8,14-18) Este fato não se refere ao Sacramento do Crisma, que mais tarde foi instituído na Igreja, mas parte integrante da missão evangelizadora.

O mesmo aconteceu quando Ananias: rezou por Paulo, com a imposição das mãos, sendo Ananias um leigo, para que ele recebesse o Espírito Santo. (cf. Atos 9) Da mesma forma Paulo rezou pelos cristãos de Éfeso. (cf Atos 19, 1-6)

A maioria das pessoas que foram batizadas no Espírito o foram pela oração com a imposição das mãos que é a maneira normal de ajudar alguém a receber esse batismo. Parece ser um modo natural de ajudar a receber a nova vida no Espírito. Quando as pessoas estão dispostas e recebem a imposição das mãos desse modo, é raro que não experimentem o Espírito.

6. Batismo no Espírito início da vida no Espírito

“Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também sob o impulso do Espírito”. (Gl 5,25)

“Denominamos batismo no Espírito Santo a experiência, dom de Deus, em que saboreamos sua presença e ação em nós”. (Francisco Catão). É Deus morando em nós de um modo novo. É um princípio e não uma garantia que o Espírito permanecerá em nós sempre da mesma maneira. É preciso continuar a viver a vida do Espírito, e, mais ainda, cultivá-la, crescer nela.

Além disso, essa vida deve ser partilhada com a nossa comunidade. Envolve-nos em um novo relacionamento com ela, num mútuo dar e receber do dom do Espírito, que está, ou deve estar, em todos.

Quando uma pessoa está vivendo a vida do Espírito, sabe por experiência (pela fé) que o Espírito Santo está nela. Quando uma pessoa está vivendo a vida do Espírito, começa a experimentar o Espírito Santo agindo de forma a permitir-lhe louvar a Deus e adorá-Lo com uma nova liberdade. Experimenta o Espírito Santo vivificando as Escrituras e dando sentido à doutrina cristã. Experimenta uma nova capacidade para falar de Cristo às pessoas, e uma alegria e uma paz mais profundas.

A vida do Espírito implica também a experiência de uma nova espécie de vivência comunitária — a de uma comunidade vivendo “no Espírito”. A vida do Espírito não é para ser vivida individualmente. O Espírito nos é dado para formarmos o Corpo de Cristo, e a vida do Espírito tanto é vivida pela comunidade como pelo indivíduo.

A comunidade cristã: testemunho da vida no Espírito

As relações fraternas de comunhão foram o sinal de sua credibilidade da primeira comunidade: “Vejam como se amam”. Os que observavam ficavam impressionados com a alegria, a simplicidade de coração, o amor fraterno efetivo. Viviam conforme sua fé: “Aquele que não ama seu irmão que vê, não pode amar a Deus que não vê” (1Jo 4,20).

A Comunidade fraterna é um sinal profético daquilo que poderia tornar-se o mundo se acolhesse Jesus como seu Senhor e Salvador. A raiz última dos males deste mundo é o pecado. Somente Jesus pode transformar na profundidade o coração humano e, por conseguinte, as estruturas, gerando assim “a civilização do amor” (João Paulo II).

7. Batismo no Espírito Santo e Carismas

O Documento de Malines[2] afirma que “o dom do espírito é também acompanhado de manifestações de ordem carismática, tais como línguas e profecias: ‘ficaram todos repletos do Espírito Santo e começaram falar em outras línguas conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem’ (At 2,4). ‘Pois eles os ouviam  falar em outras línguas e glorificar a Deus’ (At 10,46). ‘E quando Palo lhes impôs as mãos, o Espírito Santo desceu sobre eles, e falavam em línguas e profetizavam’ (At 19,6)”

Os carismas são para hoje. Mais do que nunca o mundo precisa de sinais proféticos. Nós cristãos, portadores do Espírito Santo, somos por Sua Presença em nós, capacitados para realizar estes sinais de poder. Não podemos nos fechar a essa realidade com as diversas desculpas: não sou santo ainda, não sou digno, existem outros melhores… Fechar-se assim às manifestações do Espírito Santo é viver uma vida cristã medíocre e estéril. O Espírito Santo quer manifestar-se, para a construção da Igreja, em cada um de nós. Não tenhamos medo!

Como frutos de Pentecostes, os carismas nunca estiveram ausentes da vida da Igreja. Graças a um novo e intenso “derramamento do Espírito”, a Igreja vê hoje também uma nova e mais intensa experiência desses carismas no meio do povo de Deus, a fim de servir mais adequadamente às necessidades de nosso tempo. O Concílio Vaticano II reconheceu a importância e a necessidade de carismas para a vida e o crescimento da Igreja. (cf. Lumen Gentium nº 12)

8. Batismo no Espírito Santo, Grupos de Oração e Comunidades

O livro dos Atos dos Apóstolos nos apresenta como um primeiro fruto de Pentecostes uma fraternidade de cristãos, discípulos de Cristo, estreitamente unidos entre si, às vezes até à partilha dos bens. Os primeiros cristãos aparecem como: uma comunidade apostólica, assídua ao ensinamento dos apóstolos; uma comunidade fraterna sustentada por reuniões e relacionamentos; uma comunidade eucarística, que celebra o memorial do Senhor, “até que ele venha”; uma comunidade de oração, que inicialmente se encontrava no Templo e depois passou a reunir-se nas casas. (cf. Atos 2, 42)

A Igreja primitiva cresceu como um conjunto de pequenas comunidades cristãs, dispersas no mundo romano, e desempenhando aí o papel definido pelo Senhor, como sal da terra e fermento na massa. Por uma força interior, a presença do Espírito que nela opera, a Igreja, aos poucos, se estabelece.

Descobrimos hoje que vivemos uma situação semelhante, portanto, o futuro da Igreja está condicionado pela força e qualidade de sua vida comunitária. A Igreja será aquilo que forem as comunidades cristãs nas quais se edifica o Corpo místico de Cristo.

Viver a vida cristã é essencialmente deixar que Cristo se torne a vida comum dos cristãos. É permitir que a Igreja seja edificada em nós, pelo Espírito Santo, na diversidade e complementariedade de Seus dons. É próprio dos carismas serem uma manifestação do Espírito em vista do bem comum, sendo esta a primeira garantia de sua autenticidade.

O derramamento do Espírito Santo tem por finalidade, não somente a de reconciliar Deus com o homem, mas também de reconciliar os homens entre si. Esta reconciliação modifica o coração dos homens, tornando-os dispostos a perdoar e de se relacionar a partir da caridade, criando uma nova maneira de viver em sociedade: a comunidade cristã.

São Paulo ao expor sua doutrina a respeito dos carismas, vincula o ensino à doutrina sobre o Corpo Místico, onde a razão de ser dos carismas encontra-se no bem comum, na comunidade, para edificação da Igreja, que é a união de todos os cristãos. (cf 1Cor 12, 12-27)

Os Grupos de Oração só poderão produzir todos os seus frutos abrindo-se o caminho para um cristianismo vivido em conjunto. A experiência do Espírito que se realiza neles, Grupos de Oração, liberta forças, pelas quais os cristãos que dele participam, passam a construir uma comunidade onde se aprofunda o conhecimento e a experiência de Deus, em que a vida cotidiana se torna um seguimento sincero de Jesus no serviço ao outro e onde se manifesta o Amor de Deus para cada um e para todos os homens.

A Igreja é “sacramento da unidade do mundo”, sinal e promessa para o mundo que aspira à unidade, à paz, ao pleno desenvolvimento do homem. Para realizar esta missão, deve ela mesma viver esta experiência que é uma antecipação desta comunidade humana que se procura tão penosamente.

O mundo novo e a terra nova tão sonhados pelo homem, pode ser antecipada e oferecida ao mundo através de comunidades cristãs. Vendo os cristãos viverem, o mundo deveria receber um choque e perguntar-se: qual é o segredo deste amor mútuo, desta solidariedade, deste despojamento de si? Então o nome de Jesus Cristo assumiria uma importância inesperada, porque a própria vida será luz e transparência. É o sinal da credibilidade dado pelo próprio Jesus; é a pregação da fé eficaz por excelência. A experiência cristã tem valor profético para o mundo. “Um batizado é uma promessa para todo homem; uma Eucaristia é uma promessa para toda refeição; a Igreja – comunidade é uma promessa para toda a sociedade humana”. (Cardeal Suenens)

Bibliografia consultada

–          RAHM, Haroldo J. sj e LAMEGO, Maria – Sereis batizados no Espírito Santo, Edições Loyola, 1972

–          SMET, Valter sj – Eu faço um mundo novo, Edições Loyola, 1975

–          GHEZZI, Bert – Se o Senhor não construir, Edições Paulinas, 1976

–          MÜHLEN, Heribert – Fé cristã renovada, Edições Loyola, 1973

–          TORREY, R.A – O Batismo com o Espírito Santo, Editora Betânia, 1973, 2ª edição

–          SUENENS, S. J. Cardeal e vários – Orientações teológicas e pastorais para a Renovação Carismática Católica (Documento de Malines 1), Edições Loyola, 1975

–          FALVO, Serafino. – A hora do Espírito Santo, Edições Paulinas, 1975

–          BYRNE, James – A realização das promessas de Deus, Edições Paulinas, 1976

–          CLARK, Stephen B. – Os dons espirituais, Coleção Novo Pentecostes, Edições Loyola, 1976

  •   _ Batizados no Espírito Santo, Coleção Novo Pentecostes, Edições Loyola, 1975

–          CORDES, Dom Paul Josef Cardeal – Reflexões sobre a Renovação Carismática Católica, Edições Loyola, 1999

–          COUTINHO, Tácito José Andrade – Não vos afasteis de Jerusalém, Editora Santuário, Coleção RCC – Novo Milênio nº 15, 2003

–          REIS, Reinaldo Beserra – Celebrando Pentecostes, Projeto de Avivamento da Espiritualidade de Pentecostes (Fundamentação e Novena), Editora Canção Nova e Ministério de Formação, 2004

–          CONGAR, Yves, Creio no Espírito Santo, Vol. 1 e 2, Edições Paulinas, 2005

 

[1] Esta visão a respeito do batismo no Espírito Santo – dois momentos do sacramento do Batismo – é defendida no Documento de Malines 1 – Orientações teológicas e pastoral para a Renovação Carismática Católica – Edições Loyola, 1975 – e precisa ser aprofundada. Hoje há uma tendência em afirmar que o batismo no Espírito Santo é uma graça própria (graça dada), experiencial, que inaugura a vida no Espírito, no sentido de uma experiência da ação do próprio Espírito.

[2] [2] Orientações Teológicas e Pastorais da Renovação Carismática Católica, Loyola – 1975, pg 34

Autor: Tácito Coutinho – Grupo de Reflexão Teológico Pastoral da RCC-BR

Comunidade Javé Nissi