Demonologia – Abordagem Teológica

Demonologia – Abordagem Teológica

Algumas considerações iniciais

A existência dos anjos e demônios, assim como a existência de Deus não é uma novidade revelada pela Sagrada Escritura. É uma verdade que pertence ao patrimônio mais precioso da humanidade. A grande novidade que nos traz a Bíblia é a dimensão histórico-salvífica dos anjos e demônios. Quando os anjos e demônios entram na História da Salvação sabemos que o diálogo de Deus com o homem de há muito já estava aberto. Contudo a Bíblia apresenta os anjos como criaturas de Deus a serviço do seu plano de salvação dos homens.

Os anjos e demônios não têm um campo autônomo de operação à margem de Deus. Nisto consiste a grande diferença entre os numerosos espíritos do mundo extra-bíblico e os anjos, que, como todas as criaturas, foram também criados para Cristo, de modo que Cristo é seu Senhor e cabeça (Col l, 16).

A Escritura, porém só fala dos anjos e demônios em função da salvação dos homens. Aliás, toda a linguagem da Escritura é funcional. A Escritura nunca fala do em-si de Deus, da Trindade, de Cristo, dos anjos etc., mas fala do para-nós de Deus, do Cristo, dos anjos… A linguagem da Bíblia é “econômica”: não fala de “processões” intra-trinitárias, de união hipostática ou de natureza angélica, mas fala de missões temporais das pessoas, de encarnação salvífica do Verbo, de funções histórico-salvíficas dos anjos

O mesmo Santo Padre observa que é pela fé que nós conhecemos a existência de Deus. Esta frase não anula ainda questão se é possível conhecer a existência de anjos e demônios por meio da razão natural. Esta questão é análoga ao do conhecimento da existência de Deus. Sem dúvida alguma é pela fé que conhecemos a existência de Deus e, contudo é dogma de fé que a razão natural pode chegar a conhecer a existência de Deus, como ensina o Papa João Paulo II em sua encíclica Fé e razão.

Evidentemente não há contradição entre esses dois dogmas, pois sem dúvida alguma é somente pela revelação sobrenatural que chegamos ao conhecimento da história da Salvação, do mistério cristão, e do Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo”. (Aliás convém não esquecer que mesmo o homem pagão, na sua procura de Deus, não é privado da graça divina).

A existência dos anjos e demônios tais como são revelados no mistério cristão, com sua dimensão cristológica e histórico-salvífica, só é conhecível por meio da revelação sobrenatural. Mas podemos encontrar no campo extra-bíblico numerosos seres espirituais semelhantes aos anjos os quais aparecem como intermediários entre o mundo divino e o humano.

Esses seres relevam de uma imagem simbólica do mundo e do divino. Freqüentemente essa concepção está vinculada a uma cosmovisão mítica. A filosofia grega aceita a existência de inteligências incorpóreas. São essas “inteligências separadas”, que regem os corpos celestes. Deste modo estes seres espirituais aparecem de tal modo pertencentes à cosmovisão antiga, que com o seu desaparecimento, perderam sua legitimação de existência.

Aristóteles, a partir de uma profunda reflexão, chegou à convicção de que existem inteligências incorpóreas. No meio da estrutura hierárquica do ser, reconheceu e afirmou a existência do espírito como realidade superior à matéria. Daí a tríplice classe ontológica[1]: matéria, espírito na matéria, espírito puro.

A teologia medieval desenvolveu uma angelologia baseada na metafísica grega, mas freqüentemente os anjos eram apenas o pretexto para a elaboração metafísica[2] da idéia de um ente finito imaterial e espiritual entendida como forma, ou “substância separata”. Tais reflexões porém, não raro, se fundamentaram em filósofos e teólogos de expressão e ficaram como que na periferia das discussões sérias e só com dificuldade se submetem aos dados bíblicos.

  1. a) São Tomás de Aquino e a Suma Teológica
  2. Tomás construiu todo o seu tratado dos anjos em sua Suma Teológica baseando-se na tese aristotélica de “inteligências incorpóreas” ou seres totalmente espirituais. Ele desenvolve tema nas questões 50-64 e 106-114 da primeira parte e no livro segundo da “Summa contra gentiles”, 91-101. Para S. Tomás é evidente que os anjos como “formas sem matéria” (S. Th. I, q. 50, a. 2) são individuais e cada um de diferente “espécie” (ib. a. 4) e a partir daí chega a certas conclusões relativas à psicologia dos anjos.

Essas especulações apartam-se bastante dos dados bíblicos, por isso S. Tomás recebe severa crítica por parte de alguns teólogos proeminentes, chegando mesmo afirmarem que “o Doutor Angélico não logrou em tudo a harmonia entre princípios filosóficos e afirmações teológicas”.

A crise pela qual passa hoje a angelologia e a demonologia cristãs em grande parte é devida a esta imposição acentuadamente metafísica que não encontra muita ressonância na mentalidade contemporânea e não satisfaz totalmente à linguagem bíblica. Sem dúvida a visão metafísica dos anjos e demônios os apresenta como criaturas e sob este aspecto é compatível plenamente com o pensamento bíblico que insere intimamente os anjos na imagem monoteísta do mundo. Mas além disso na Escritura os anjos estão tão unidos com Cristo, que esta sua peculiaridade só é conhecida dentro do âmbito do desígnio divino da salvação, isto é, em virtude da Revelação divina.

  1. b) A angelologia contemporânea

Os teólogos contemporâneos valorizam mais os dados da revelação bíblica. A história da salvação nos revela que os anjos estão ordenados à história humana, ordenação que tem seu fundamento no plano salvífico de Deus.

Como criaturas espirituais os anjos são dotados de subjetividade e personalidade. Nós não temos experiência de como se processa a auto-reflexão numa criatura puramente espiritual. Pois só compreendemos claramente o ser vinculado à matéria, isto é, nossa própria natureza de espíritos encarnados. Os anjos apresentam-nos ainda a natureza contrária ao senso comum de serem por um lado puros espíritos e por outro lado naturezas limitadas. Nós complicamos ainda o problema quando projetamos nos anjos nossas experiências de “pessoas” situadas no tempo e no espaço e tentamos imaginá-los como “pessoas” igualmente situacionadas. É assim que espontaneamente somos tentados a imaginar a finitude dos anjos.

No entanto a finitude dos anjos está expressa no fato só poderem reflexionar sobre si mesmos, isto é, possuir-se a si mesmos, mediante o encontro com outras criaturas, com outros anjos.

Cada anjo, ao contrapor-se ao tu de outro e dirigir-se a ele para tornar a voltar-se a si mesmo, realiza sua própria existência.

Para o anjo como para o homem é indispensável o relacionamento com “um outro”. É só num contexto social que o homem se personaliza. Os anjos, porém se distinguem dos homens pelo fato desse seu relacionamento não se realizar na dimensão do corporal. Porém como a condição incorpórea dos anjos não os torna fora da realidade nem os priva de relação à matéria. A revelação nos afirma o contrário. Na sua ordenação funcional na história da Salvação o anjo se auto-transcende (podemos dizer “se realiza”) numa dupla direção, em relação a Deus e as criaturas angélicas (como ele) e em relação ao homem e à matéria.

Anjos e homens têm uma dupla dimensão convergente, enquanto criaturas e enquanto buscam um único fim sobrenatural. K. Rahner escreve com sua habitual profundidade: “Apesar de nossa carga corporal, o que nos determina também a nós, em último termo, é que somos espíritos, transcendência aberta para o infinito que é Deus. Isto nos aparenta essencialmente com os anjos. Entre anjos e homens não se dá uma diferença semelhante à existente entre o ser inanimado e o vivo. Anjos e homens coincidem já desde o início: não só pela única graça sobrenatural, mas pela transcendência aberta para o mesmo e único fim”.

A semelhança existente entre a natureza dos anjos e dos homens chega a seu vértice na igualdade da graça e na unidade de sua especial vocação.

  1. c) Como podem os anjos e demônios agir sobre o homem?

Há vários níveis da ação dos espíritos sobre os homens desde as aparições, até as tentações e as possessões corporais. Em todas essas ações, porém os seres espirituais só podem agir na alma através dos nossos sentidos.

A Escritura menciona freqüentemente as aparições de anjos e por vezes de forma bem diversa. Os teólogos explicam que os anjos, ou Deus através dos anjos, produz no espírito determinados movimentos espirituais de conhecimento ou de amor, em conformidade com seu plano salvífico.

O homem traduz a operação divina para o mundo das imagens da própria fantasia, segundo suas faculdades espirituais, sua cultura e sua força plástica. A fantasia expressa de um modo análogo a vivência produzida por Deus. Assim, a aparição de um anjo não é um fenômeno puramente objetivo. Constitui sempre uma objetivação do homem. É uma síntese de um acontecimento objetivo e de uma experiência subjetiva ativa.

  1. d) As tentações demoníacas

Conforme a Escritura o demônio é chamado Diabo ou Satanás precisamente porque é adversário do homem e procura seduzi-lo para o pecado. Como pode o Diabo influenciar os homens?

Um ser espiritual nunca pode influir no homem como influi Deus. Deus atinge intrinsecamente a própria essência do homem, move-o e toca-o com sua graça por dentro.

A ação do Espírito Santo não é comparável com o agir da criatura; pelo fato mesmo de sua infinita e absoluta transcendência a ação divina é imanente ao próprio agir da criatura. Mas um espírito criado só pode influir em outro espírito criado, por meio da persuasão e do influxo sobre seu apetite sensível provocando determinados afetos.

Somente Deus pode agir diretamente na consciência e na vontade. Uma criatura espiritual só pode influir no interior do homem através da fantasia.

Os sentidos externos são o ponto originário de todo o conhecimento humano. A fantasia, porém é o sentido interno que assume o objeto exterior e o transfere ao interior do homem. A fantasia dispõe de uma quantidade de imagens que se podem combinar e excitar outras. Do conhecimento do sentido interno, por sua vez, segue o apetite sensitivo. Logo, é no campo da fantasia que se realiza no homem os influxos do diabo, visto que a fantasia é o âmbito natural do influxo externo e onde se opera a combinação entre o interno e o externo.

  1. e) Possessão demoníaca

Além da tentação que é a ação tipicamente diabólica pela qual o “Tentador” procura levar o homem a livremente cometer o pecado e desse modo fazê-lo cair em seu poder, existe um outro modo de ação demoníaca, que se chama possessão.

A possessão é uma ação tão avassaladora de Satanás sobre uma pessoa que chega a suplantar as potencias naturais superiores do homem e obstruir sua consciência. A possessão não supõe um pecado na vítima, nem visa induzi-la ao pecado, pois lhe tira toda a consciência e liberdade pessoal.

A possessão diabólica, no sentido cristão do termo, tal como aparece no N. T., é um fato novo, tão novo como o próprio Cristo, indissoluvelmente relacionado com o mistério e a pessoa de Jesus Cristo. Pois se com Cristo chegou no meio de nós o Reino de Deus, a expulsão dos demônios nos possessos feita por Cristo nada mais é do que o sinal visível da chegada desse Reino invisível.

As possessões descritas nos Evangelhos, na sua dimensão histórico-salvífica, não são um fato explicável pelos métodos das ciências exatas ou da especulação filosófica. O fato de sua existência, e por conseguinte de sua possibilidade, nos é garantido pela autoridade da Palavra divina.

Enquanto fato dogmático, a possessão transcende a alçada da biologia, da medicina, da parapsicologia ou da psicologia, etc. Os evangelistas nunca pretenderam transmitir-nos dados científicos, geográficos, históricos, biológicos, psicológicos, etc. Por isso os Evangelhos são tão pobres nos dados biográficos sobre Cristo. Impossível traçar um roteiro geográfico dos itinerários de Jesus ou enquadrar com rigorosa exatidão histórica os pormenores cronológicos e o campo de suas atividades apostólicas.

O evangelista visa mais instruir do que narrar, por isso a cronologia e topografia têm um valor secundário. As expressões circunstanciais do tempo e lugar são por vezes, meras suturas literárias que servem para ligar um sermão ou um episódio a outro.

Por isso mesmo as indicações circunstanciais das ações de Jesus são deliberadamente vagas: no monte, na planície, nas margens do lago, no deserto, de noite, no caminho etc… Visam apenas situar no tempo e no espaço as ações de Jesus para mostrar que se trata de um evento real e não de um mito não histórico, sem, por outro lado, cair no perigo de sacralizar lugares, ou tempos, ou outras circunstâncias.

O Evangelista não é um repetidor automático ou um digitador que visa transmitir mecanicamente a materialidade das ações e palavras de Cristo: A letra mata. A materialidade dos eventos e das palavras de Cristo não salva ninguém. Os fariseus e saduceus vigiaram dia e noite todos os passos de Cristo, ouviram suas palavras, presenciaram seus milagres e decidiram matá-lo porque senão todo mundo acabaria acreditando nele. (Jo 11, 48-53). Mais ainda, testemunharam a morte de Cristo e viram-no ressuscitado e não acreditaram.

Por isso na Igreja Apostólica os pregadores apostólicos nas instruções feitas em geral em celebrações litúrgicas, apelando sempre para maior elevação e observância de quanto havia sido pregado pelo Senhor, não tinham a preocupação de repetir fórmulas estereotipadas à guisa de clichês, mas de inocular na comunidade a convicção de que Jesus — Messias é o Salvador.

O relato dos Evangelhos foi antes vivido na Igreja, nasceu na Igreja e espelha a vida da Igreja Apostólica; daquela Igreja fundada por Cristo, depositária da doutrina de Cristo e testemunha de sua Paixão, Morte e Ressurreição. Por isso os Evangelhos são as narrações da vida, doutrina, Morte e Ressurreição de Cristo, não enquanto reproduzem mecanicamente a materialidade de tudo quanto Jesus disse, ensinou e fez; mas enquanto tudo quanto Jesus fez, ensinou e disse passou a ser ensinado, pregado e vivido na Comunidade apostólica. O Evangelho contém, portanto, a voz da Comunidade primitiva e atesta que Jesus — Messias é o Filho de Deus.

Por isso o Evangelho não é uma reportagem ou uma crônica, mas um testemunho de uma testemunha verdadeira (Jo 21,24) que escolhe entre os muitos sinais realizados por Jesus aqueles mais aptos para alimentar nossa fé e dar-nos a vida eterna (Jo 20, 30).

Por isso também os milagres de Jesus são sinais. Ele cura o paralítico para dar-nos um sinal verificável de maneira viva de que pode libertar-nos do pecado (Mc 2, 10). As curas de Jesus são um sinal e uma antecipação da liberação escatológica. Outrora o mundo era bom. A ordem foi destruída pelo pecado. Pela desobediência de um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte (Rm 5, 12). Sinal do pecado no mundo é a morte e a doença. Com Cristo chegou o Reino de Deus. A criação vai reencontrar a saúde. As curas miraculosas de Jesus são o início, o sinal e a garantia de que o Reino de Deus chegará em plenitude.

A possessão diabólica é um sinal do extremo a que chegou a falta de liberdade, de escravidão no mais alto grau (Lc 13, 16), na qual o centro da personalidade, o “eu” fica mutilado, em sua vontade consciente e em seu procedimento, por forças estranhas que querem estragar o homem e, algumas vezes, levá-lo até a autodestruição.

É obra de Satanás, o “homicida desde o início” (Jo 8, 44) por definição, pois com a possessão a dignidade e liberdade pessoais do homem são rebaixadas até ao extremo.

O ódio homicida que Satanás nutre por toda a criatura de Deus é narrado com insuperável plasticidade no episódio do possesso de Gerasa. Apenas expulso do homem destrói a manada de porcos manifestando assim sua frustração e sua ânsia impotente de destruir a humanidade.

Com a vinda de Cristo o império de Satanás foi destruído. Cristo aparece como o vencedor que doma os demônios pelos seus atos. O exorcismo dos possessos, a libertação do homem da escravidão demoníaca, é obra daquele que “apareceu para destruir as obras do Diabo” (1Jo 3,8) e para libertar os homens para a liberdade” (Gal 5, 1). As expulsões dos demônios manifestam a vitória do “mais forte” que triunfa sobre o “forte” (Mc 3, 27).

Os exorcismos feitos por Jesus não significam uma concessão que ele teria feito à mentalidade popular, nem significa sobrevivência de elementos mitológicos no Evangelho. Os exegetas admitem que, se ocorre por vezes uma “linguagem” mítica nas narrações evangélicas; não há propriamente nenhum mito no N. T.

Ora se as possessões fossem concepções mitológicas, então seriam o único mito e, realmente, mito tão central no Evangelho que destruiria o caráter histórico da atividade apostólica e messiânica de Cristo.

A luta contra o diabo está unida indissoluvelmente com toda vida terrena de Jesus. Cristo não tem só de ensinar uma doutrina, mostrar um caminho e trazer uma vida, mas tem, além disso, que romper um poder pessoal e antidivino.

Não se trata também de uma concessão à mentalidade popular, ou acomodação às representações da época, pois Jesus não perde ocasião de corrigir idéias supersticiosas ou de qualquer forma erradas, como no caso da “culpa” do cego de nascença (Jo 9, 3); ora isso nunca sucede quando o assunto é sobre os possessos. Aliás, não se pode falar, a esse respeito, de uma mentalidade popular. Pelo contrário, a existência dos demônios era uma verdade profundamente controvertida no tempo de Jesus. A elite sacerdotal e conservadora dos saduceus negava a existência dos anjos e demônios. Além disso, se Jesus não admitisse o fato das possessões diabólicas, estaria obrigado a confessar essa sua convicção quando foi acusado pelos fariseus de expulsar os demônios em nome de Beelzebul, o príncipe dos demônios. Nesse momento Jesus estava obrigado a revelar a verdade e mostrar aos fariseus que eles estavam equivocados, que não existiam demônios ou então que as assim chamadas possessões eram puras doenças naturais. Ora, em vez de fazer assim, Jesus dá uma preleção de demonologia falando sobre a organização do reino de Satanás. Por conseguinte, negaria a autoridade de Jesus quem negasse a existência ou a ação dos demônios.

Logo as narrações de exorcismos nos evangelhos não são narrações vulgares. Encaixam plenamente na economia da salvação, com seu sentido particular e próprio, que Jesus mesmo explicou em Mt 12, 22-30.

Contra a acusação de magia que lhe faziam os fariseus dizendo que expulsava os demônios com poder do próprio Satanás, Jesus nos revela que os demônios formam um reino bem organizado, sob as ordens de Satanás, para combater o reino de Deus. Porém com Jesus o reino de Deus se revela poderoso. Jesus é mais poderoso, que o “valente armado” e veio para dar fim ao seu reinado. Seus exorcismos inauguram o reino de Deus contra o soberano “deste mundo”. Todos os exegetas reconhecem hoje que estes relatos pertencem aos extratos mais primitivos da tradição sinótica.

f) O exorcismo de Gerasa, estudo de caso

O célebre episódio do exorcismo de Gerasa atestado pelos três Sinóticos ilustra muito bem seu alcance escatológico e salvífico.

No meio de algumas circunstâncias “grandiloqüentes” que servem de moldura literária (celebridade do local, número incrível de porcos, etc.) que relevam do gênero apocalíptico escatológico, há outros pormenores que põe em relevo o caráter de “condenação” e “servidão” no qual vive o possesso, entre sepulcros (no reino da morte), no meio dos animais impuros, com grilhões e despedaçando-se entre os penhascos, suplicando que Cristo não o envie ao “abismo” (em grego “abysson”, no hebraico “tehom” — Tiamat — o lugar onde habitam os monstros vencidos por Deus).

Todo este luxo de pormenores põe em contraste a sobriedade extrema com a qual se descreve o confronto dos dois personagens centrais do episódio: Jesus e o endemoninhado. Jesus não faz uso de nenhuma prática mágica. Dá apenas uma ordem e o endemoninhado fica sentado a seus pés em seu pleno juízo. Em seguida torna-se o primeiro missionário de Cristo na Decápole anunciando a Salvação (Lc 8,36) que lhe viera por meio de Jesus Cristo.

No relato deste milagre de Jesus bem como na narração de outros exorcismos ou das curas milagrosas de Jesus os Evangelhos não tinham em vista fornecer uma síndrome completa que permitisse às ciências de hoje diagnosticar com precisão a doença. Os milagres não são relatados por si mesmos nem são episódios autônomos. Eles têm uma função cristológica e soteriológica. São SINAIS para nossa fé. O Evangelista nos avisa que “muitos outros SINAIS fez Jesus em presença dos discípulos, os quais estão escritos neste livro; e estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20, 30).

Para prevenir a tentativa de uma exegese que pretendesse despir esse episódio de Gerasa de sua dimensão messiânica e de sua “significação escatológica” para dar-lhe uma interpretação materializante e episódica ou anedótica, a Tradição Sinótica acumulou dados circunstanciais que mostrassem de antemão a impraticabilidade de tal interpretação.

Com efeito, não há em Gerasa nenhuma “montanha” que comporte uma vara de 2.000 porcos (aliás, não somente na Palestina, mas em todo o Império Romano nunca houve uma fazenda que chegasse a criar dois mil porcos). Gerasa dista 60 quilômetros do lago de Galiléia e não há nenhuma causalidade natural ou paranormal que possa explicar um estouro desse porte, que leve uma imensa manada de porcos a atravessar literalmente toda a Decápole, durante vários dias, para ir precipitar-se no mar da Galiléia.

Toda tentativa de avaliar esses textos com outros critérios que não os da exegese neotestamentária está de antemão fadada ao fracasso.

Por isso sempre que alguns renomados cientistas, não considerando as regras da interpretação bíblica tentaram interpretar esses textos, aplicando embora com rigor os métodos científicos de sua respectiva competência, chegaram a resultados lamentáveis que suscitaram profundo pesar entre os exegetas.

[1] Ontologia: parte da filosofia que se ocupa da realidade do “ser”.

[2] Metafísica: estudo abstrato sobre o conceito de realidade, ser, substância e as reflexões teológico-filosóficas sobre o Ser Supremo, causa primeira, etc. Aristóteles a denominava de “filosofia primeira”.


 

Autor: Ministério de Formação Paulo Apóstolo

Comunidade Javé Nissi