A Banalização da Experiência de Pentecostes

A Banalização da Experiência de Pentecostes

Uma (pequena) visão conjuntural

A falta de um posicionamento claro da parte da Igreja em relação á doutrina do batismo no Espírito Santo parece contribuir com a dificuldade que a RCC tem, enquanto liderança, em levar o seu povo a abrir-se adequadamente a essa experiência, aceitando-a como pertinente e legítima. Muitos parecem sentir-se em uma condição de “transgressão doutrinária” ao tratar do assunto, e hesitam em se abrir à recepção dessa benção, dessa graça. E quando ela escasseia em nossos espaços, em nossos ambientes, em nossas dinâmicas, permanecemos “na periferia” da experiência pentecostal, e os sinais de sua ausência logo se tornam perceptíveis:

  1. Um grande número de coordenações da RCC, em todas as instâncias, não temos manifestado em nossa prática religiosa as evidências do batismo no Espírito Santo. Não há sinais. Não se nota poder nas pregações. Não há continuado ensino – e, conseqüentemente, formação – que estimule e aprofunde o conhecimento sobre a Pessoa e a ação do Espírito Santo, ou sobre a cultura de Pentecostes. Não ocorrem verdadeiras profecias em nossas reuniões com a frequência que se era de esperar (comumente, o que se vê são “não profecias”, ou, citações bíblicas proclamadas como profecias carismáticas). As línguas limitam-se a um “louvorzão” coletivo, com muita música, e raros momentos de escuta. Não há, de fato, evidências de uma espiritualidade de Pentecostes.
  2. As coordenações parecem estar sendo escolhidas, na maioria das vezes, baseadas em critérios humanos (com verniz de “discernimento espiritual”), mas sem levar em conta os critérios do Espírito, o critério dos carismas – que devem estar previstos na base de todo serviço. Analisamos as condições dos possíveis candidatos à coordenação a partir ( e tão somente) de critérios humanos: disponibilidade de tempo, condição financeira, conhecimento intelectual do assunto, etc. E dizemos que “Deus capacitará “os escolhidos”, esquecendo-nos de que Deus faz isso, sim, desde que Ele tenha participado da escolha, desde que Sua vontade tenha sido respeitada… Aí, o mais simples e frágil dos escolhidos pode se tornar instrumento poderoso nas mãos do Senhor. Do contrário, amargaremos e pagaremos o preço e as conseqüências por nossas más escolhas que não levaram em conta a vontade de Deus. Porque líder na Renovação Carismática precisa ser aquele que necessariamente fez a experiência do batismo no Espirito Santo, e manifesta isso em seu ministério.
  3. O batismo no Espírito está se tornando mais um “dado conceitual” que uma ocasião de experiência de Deus. Acreditamos nele, na teoria dele, mas mais como um elemento doutrinário do que como alguma coisa que eu tenha experimentado. Fazemos, também nas assembléias, um “grande louvor”, e pedimos a repleção sem nos preocuparmos em conferir os resultados, sem averiguar os sinais. (E não existe Pentecostes sem sinais, sem poder, sem manifestação de carismas). Supomos que as pessoas na assembléia já sabem a respeito de batismo no Espírito; oramos de forma generalizada (não especifica), e nos quedamos contentes com a “sensação de bem-estar” que a oração propicia. Não “perdemos mais tempo” em explicar, preparar, motivar, orar, escutar, acompanhar. “Se você “cré” no Batismo no Espírito”, você já é “dos nossos…”. E não entendemos porque o nosso ensino não gera mais lideranças comprometidas, nossas pregações não provocam conversões radicais, nossa oração não é acompanhada de sinais, e nossos grupos de oração cada vez se tornam mais rotineiros, repetitivos, insossos…
  4. Observa-se uma sensível banalização do exercício do dom das línguas nos nossos grupos e assembléias. Notemos como parece ocorrer uma “automatização” na nossa oração em línguas. “Puxamos” a oração no microfone, paramos de orar abruptamente e nos dirigimos a um irmão (servo) ao lado, damos a ele algumas instruções, voltamos a nos “conectar” na oração, paramos de novo, voltamo-nos para o ministério de música, falamos qualquer coisa, retornamos ao “chandara-kandara”, procuramos alguém com os olhos e, movendo a cabeça, damos sinal para que alguém compareça perto de nós (sem parar a “oração”!), e procuramos uma passagem na Bíblia, ou algum aviso para ser dado, e… assim por diante!… Diz a Palavra que nossa oração em línguas é dirigida a Deus, pois estamos a falar de “coisas misteriosas sob a ação do Espírito”, (1Cor 14, 2). Ora, se essa oração só “interessa” a Deus, é importante que ela seja uma oração “interessante” para Ele. Não se trata de simplesmente ficarmos emitindo sons de maneira “mecanizada”, “automatizada”, de repetição cadenciada, mas sem sentido, interrompida continuamente. Não! É preciso que esses sons aparentemente desconexos estejam em estreita ligação com uma intenção do nosso coração, dos nossos sentimentos (de louvor, ou adoração, ou intercessão, ou petição, ou de contrição, etc, conforme a orientação e a condução do momento). Sem tradução, sim, mas não sem sentido…) É um sintoma sério, na medida em que consideramos o dom de línguas se não como uma evidência, mas como conseqüência do batismo no Espírito. Se a conseqüência está banalizada…
  5. Há uma substituição progressiva da atividade carismática por mero ativismo religioso. Organizamos isso, aquilo, e aquilo outro, e pomos nisso tudo, o melhor de nossas energias, sem levar em conta a dinâmica carismática que deve estar preserve em nossas atividades e organizações. Pomos “mais de nós, e menos de Deus”, nas coisas…
  6. Estamos, em muitas realidades, regredindo a patamares onde já estivemos em tempos passados: somos grupos de Igreja que tem consciência a respeito do significado do evento Pentecostes, que acreditamos na totalidade do que ocorreu em Pentecostes, mas que NÃO EXPERIMENTAMOS PENTECOSTES!

(Porque, quando se o experimenta, nota-se! Há conseqüências, há sinais, não na vida de “algumas” pessoas ungidas do grupo, mas na vida de todos os que experimentam… E enquadramo-nos, assim, dentre aqueles de quem dizia João Paulo II no Pentecostes de 2004, para os quais “Pentecostes ainda não é uma realidade viva…! E, creiam, isto está ocorrendo entre nós!!!)

  1. Tudo muito subjetivo? Há dois anos está em andamento na RCC do Brasil um Projeto visando difundir a espiritualidade de Pentecostes – conforme pediu o papa João Paulo II – e que tem por eixo central uma novena carismática que culmina com o batismo no Espírito Santo. Um Projeto aprovado pelo Conselho Nacional, em Assembléia. Pois mais ou menos 80% de nossas dioceses – e de nossas coordenações estaduais – nem se deram ao trabalho de divulgar – ou ler, creio eu – o projeto… Há mil outras atividades em andamento: formações de outras expressões da Renovação, da Evangelização 2000, Seminários de Vida dados durante o horário dos Grupos de Oração (sem pastoreio posterior; dados, na verdade, para quem já freqüenta o Grupo, como uma forma de “mudar um pouco a rotina” das coisas), Encontros e mais encontros sobre tudo o que se possa imaginar -especialmente sobre cura e libertação -, mas sem tocar neste que é o projeto central da RCC no momento. Congressos Nacionais de Ministérios acontecem ( e também congressos diocesanos, estaduais… sem que um só tema, um só momento, uma só palavra, seja dedicada a difundir o projeto… (e pensar que os Ministérios são organizados para, dentro do exercício específico de determinado carisma, colocar em andamento (executar) os projetos discernidos pela Presidência e pelo Conselho!). Não consta na pauta… Supomos que todos já estão versados na plenitude do Espírito…

Autor:  Reinaldo Beserra dos Reis – II Congresso Teológico-Pastoral da RCC-2006

Comunidade Javé Nissi