A existência do Diabo é um Dogma de Fé?

A existência do Diabo é um Dogma de Fé?

a) O que é um Dogma de Fé?

O Código de Direito Canônico (C. 1323 § 1) define assim: “Deve-se crer com Fé Divina e Católica tudo o que está contido na Sagrada Escritura ou na Tradição divina e que a Igreja apresenta como revelado quer por meio de uma definição solene, quer pelo seu magistério ordinário universal”.

Esta definição do Código de Direito Canônico é transcrita literalmente da definição dada pelo Concílio Vaticano I no ano 1870, na terceira sessão, na Constituição Dogmática “Dei Filius”, sobre a fé católica, cap. 3.

  1. Rahner, no seu artigo Dogma, em Sacramentum Mundi, define assim: “Dogma é um enunciado de fé divina e católica, isto é, uma afirmação que a Igreja proclama explicitamente, quer através do Magistério ordinário e universal, quer mediante uma definição papal ou conciliar, como divinamente revelada”.

Logo, seria falso limitar os Dogmas às verdades definidas pelo Magistério extraordinário. O Magistério extraordinário (concílios) só definiu as verdades que estavam sendo negadas por alguma heresia.

A definição foi sempre dada sob uma ameaça mortal para a vida da Igreja. Aquilo que é para o Estado a declaração de guerra, é para a Igreja a formulação de dogma: a ultima razão. Por isso os dogmas definidos nem sempre abarcam as verdades fundamentais do cristianismo, mas as verdades que foram contestadas. Ora, freqüentemente eram aspectos secundários que eram negados. Por isso, muitas vezes as definições dogmáticas referem-se a aspectos doutrinários secundários.

Por outro lado as verdades realmente fundamentais e evidentes nunca foram negadas; por isso nunca foram definidas. Assim a existência de Deus, ou então o mistério da Redenção, nunca foram negados pelos cristãos, por isso não há nenhuma definição dogmática sobre a existência de Deus.

E ninguém porá em dúvida que a existência de Deus é uma verdade de fé divina e católica e por conseguinte um Dogma de fé, pois essa verdade é pressuposta em cada página da Escritura e ensinada constantemente pelo Magistério ordinário da Igreja.

O mesmo se deve dizer a respeito da existência dos demônios que são mencionados quase que em cada página do N.T., cuja existência é pressuposta em inúmeros textos conciliares.

O concílio de Trento define que pelo pecado original o homem ficou escravo do Diabo (DS 1511; 1521, 1668). O Concílio de Florença ensina que o Diabo foi derrotado pela redenção de Cristo (DS 1347, 1348).

O Concílio Vaticano II menciona diversas vezes o Diabo que é designado Demônio: LG 17, AG 9, LG 5; ou Diabo: LG 48, AG 9; ou Satanás: SC 6, AG 3, ou Maligno: LG 16; AG 9; GS 13 etc.

Os concílios nunca definiram que os demônios foram criados por Deus, mas definiram que os demônios foram criados bons e livremente se perverteram. DS 286, 457, 800, 1078, 325, 797.

É por isso que Paulo VI afirma categoricamente: “Sabemos, portanto, que este ser mesquinho e perturbador existe realmente, e que ainda atua com astúcia traiçoeira; é o inimigo oculto que semeia erros e desgraças na história humana”.

O Papa Paulo VI afirma que é herege (= está fora da doutrina revelada na Bíblia e da fé da Igreja) quem nega a sua existência: “Sai do âmbito do ensinamento bíblico e eclesiástico quem se recusa a reconhecer a existência desta realidade… ou a explica como uma pseudo-realidade, como uma personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas de nossas desgraças” (Alocução “Livrai-nos do Mal”, 23/11/1972).

Não ha dúvida alguma que Paulo VI espelha fielmente o Magistério ordinário da Igreja, quando pronuncia estas palavras. A existência do Diabo nunca foi negada por nenhum Papa, nenhum Concílio, nem nunca foi posta em dúvida por nenhum heresiarca. Sem dúvida alguma é uma verdade de Fé Divina e Católica pelo Magistério Ordinário da Igreja. Logo é um dogma de fé.

Outra coisa bem diversa é avaliar a importância salvífica desse dogma.

b) Uma hierarquia de verdades

Sem dúvida alguma todos os dogmas enquanto tais têm uma igualdade formal, visto que todos são garantidos por Deus e pela Igreja. Mas não é esta a questão. O Concílio Vaticano II fala de uma “hierarquia de verdades” (UR, 11). No decreto sobre o Ecumenismo afirma que “existe uma ordem ou hierarquia das verdades na Doutrina Católica conforme o diverso nexo que elas têm com o fundamento da fé cristã” (UR, 11).

Conforme K. Rahner “o critério mais seguro para discernir os dogmas fundamentais está na distinção entre dogmas necessários e não necessários para a salvação, feita sob o ponto de vista de se eles devem ser cridos explicitamente (com necessidade de meio ou de preceito) para poder alcançar a salvação, ou, pelo contrário, é suficiente crê-los implicitamente”.

No que diz respeito a este critério apresentado pelo Concílio Vaticano II não há dúvida alguma que o dogma da existência dos demônios ocupa um lugar secundário na “hierarquia das verdades”. Mais ainda, se é verdade que a existência do Diabo constitui uma verdade de fé; é verdade também que o Diabo não é nem pode ser objeto de fé e nem devemos dar fé ao Diabo. Neste sentido não devemos crer no Diabo, pois a fé cristã refere-se exclusivamente ao Deus Criador e Salvador.

Na fé se trata única e exclusivamente de nossa união com Deus; de nossa participação na relação divina com Jesus. Por isso nenhum ser criado pode ser objeto de fé. Cristo veio precisamente para libertar-nos da servidão ao Diabo. A fé em Jesus Cristo me impede de prestar fé ao Diabo que é mentiroso desde o princípio e pai da mentira.

O Diabo nunca poderá levar ninguém a Deus. Por isso toda corrente pastoral e espiritual que procurasse explorar esse lastro tenebroso e irracional, saturado de terror e de angústia, que está no fundo do ser humano, fomentando uma espiritualidade de temor dos demônios como meio seguro para cimentar uma vivência cristã e uma conduta moral, estaria completamente equivocada. O medo do Diabo em vez de fomentar impede que se tenha maior abertura para o Deus do amor.

c) Vigiar e orar

Os demônios ocupam um lugar secundário na revelação cristã. Os anjos também desempenham uma função subalterna na história da salvação. No A.T. sua figura é muito apagada. No entanto no judaísmo tardio a angelologia e demonologia tiveram um desenvolvimento extraordinariamente exagerado. Nos apócrifos judaicos os anjos não são apenas mensageiros de Deus, mas também presidem às realidades do universo: anjos do firmamento, dos fenômenos naturais, como o vento, o raio, o trovão, a água, as frutas, os metais, etc. Anjos são encarregados de punir os homens. Sob influência do dualismo gnóstico chegou a haver uma verdadeira adoração dos anjos.

Na Igreja primitiva S. Paulo teve que combater veementemente o culto exagerado que os colossenses prestavam aos anjos, que eram considerados governadores do mundo. Em Colossos e em Éfeso os anjos chegaram a ser elevados à categoria de divindades. São verdadeiras “Potências” que dominam o mundo e nem sempre estão ao serviço de Deus (Ef 6,11ss). Acreditavam que os anjos teriam sido os mediadores da Lei mosaica e por meio das prescrições da lei exerciam influência sobre os homens. Desse modo a própria dignidade de Cristo e a supremacia de sua mediação ficavam rebaixadas e suplantadas pelos anjos.

Os Colossenses prestavam um verdadeiro culto aos anjos (Col 2,18) pretendendo colocá-los acima de Cristo. S. Paulo vê-se obrigado a demonstrar que todos os seres angélicos: Tronos, Dominações, Principados, Potestades, foram criados por Cristo e para Cristo (Col 1,16). O Apóstolo proíbe os fiéis acreditar que aquelas “forças” ou divindades astrais poderiam influir ou dominar a sorte dos homens. Tais crenças supersticiosas diminuiriam o Cristo que possui a plenitude da divindade e da graça (Col 1,15-2,23). Em Ef 1,22; 2,2; Col 2,10.15, S. Paulo declara expressamente que Cristo desarmou e venceu essas forças e as reduziu à impotência.

Vemos, por conseguinte, como desde os primórdios do Cristianismo, S. Paulo teve que lutar contra as heresias gnósticas e mistéricas que se desviavam para práticas demoníacas ou tributavam adoração a criaturas angélicas.

d) O cristianismo é uma religião de amor e não de terror

No Brasil a proliferação escandalosa dos “Terreiros” nos mostra que o sincretismo e o ocultismo afastam os homens de Deus. Mas também no catolicismo popular brasileiro não consta que, onde o diabo é posto em evidência, a grandeza de Deus sobressaia ainda mais.

Como ensina D. J.E. Martins Terra, bispo auxiliar emérito de Brasília:

O sentido do dogma da existência do Diabo não é colocar-nos em relação com o Diabo; mas revelar-nos que estamos situados numa história de salvação e de condenação. História que transcende a própria humanidade e envolve também seres puramente espirituais. Anjos e demônios constituem o horizonte pessoal de nossa história de salvação e de condenação e mostram a gravidade e transcendência dessa história.

A presença de Satanás, o tentador, nos alerta constantemente que o pecado é uma possibilidade e que a condenação eterna não é uma pura hipótese.


 

Autor: Ministério de Formação Paulo Apóstolo

Comunidade Javé Nissi