Os Carismas para o Apostolado

Os Carismas para o Apostolado

a) O Espírito Santo unge os batizados com a mesma unção espiritual de Jesus

Através do Batismo todos os homens são regenerados para a vida dos filhos de Deus, unidos a Jesus Cristo e ao seu corpo que é a Igreja e são ungidos pelo Espírito Santo, tornando-se templos espirituais (Cl.10): “Foi um só Espírito em que todos nós fomos batizados a fim de formarmos um só corpo” (1Co 12,13). Portanto, todos os batizados vivenciam a “unidade misteriosa com Jesus e entre si” (cf Jo 17,21), todos somos ramos de uma única videira, Jesus Cristo. Além de desfrutarmos pelo Batismo da unidade com Cristo e com os irmãos, nos tornamos “pedras vivas” edificadas sobre Cristo, a “pedra angular”, destinada à construção de um edifício espiritual (1Pd 2,4ss).

O Espírito Santo então unge o batizado e, com esta unção espiritual, ele pode repetir e assumir para si as palavras de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19), porque a efusão batismal e crismal torna o batizado participante do tríplice múnus sacerdotal, profético e real de Jesus Cristo, enquanto membros da Igrerja (CL, 13s.). Isto vem nos certificar que os batizados são configurados em Jesus Cristo (Fl 3,21) de uma forma total, inclusive em todas as suas atividades (cf. Rm 12,1s).

Jesus mesmo nos disse: “Em verdade, em verdade voz digo: aquele que crer em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas: porque vou para junto do Pai” (Jo 14,12).

Da mesma forma que somos muitos membros e formamos um só corpo, onde Cristo é a cabeça (Cl, 1,15-18), também na edificação do Corpo de Cristo existe diversidade de funções, um único e mesmo Espírito distribui os seus vários dons segundo a sua riqueza (1Cor 12,1-11) e como lhe apraz.

No Decreto Unitatis Redintegratio, lemos: “Com efeito todos quantos fostes batizados em Cristo, vos revestis de Cristo (…) Pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,27-28). O Espírito Santo, que habita nos crentes, que enche e governa toda a Igreja, é quem realiza aquela maravilhosa comunhão dos fiéis e une todos tão intimamente em Cristo, de modo a ser o Princípio da unidade da Igreja, É ele quem opera a distribuição das graças e dos ministérios, enriquecendo a Igreja de Jesus Cristo com diferentes dons “a fim de aparelharem os santos para a obra do ministério na edificação do Corpo de Cristo” (Ef 4,12; UR, 2).

b) Os carismas e a vivência do nosso sacerdócio comum

Os dons provêm da intercessão que todos devemos praticar em nosso sacerdócio comum recebido no Batismo: “Cristo Senhor, Pontífice tomado dentre os homens, fez do novo povo um reino de sacerdotes para Deus Pai. Pois os batizados, pela regeneração e unção do Espírito Santo, são consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo, para que por todas as obras do homem cristão ofereçam sacrifícios  espirituais e anunciem os poderes daquele que das trevas o chamou à sua admirável luz. Por isto todos os discípulos de Cristo, perseverando em oração e louvando juntos a Deus, ofereçam-se como hóstia viva, santa, agradável a Deus. Por toda parte dêem testemunho de Cristo. E aos que pedirem dêem as razões da sua esperança da vida eterna (LG10).

No exercício dos carismas estamos vivenciando a nossa vocação sacerdotal, o nosso chamado de entregarmos as nossas vidas para o serviço do reino de Deus. Um serviço não mais vivido pelas nossas forças humanas debilitadas, mas pela força que brota da união com o sacerdócio de Cristo, que “se entregou por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4,25), o único que “tem por condição a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações habita o Espírito Santo como num templo” (LG 9,25).

Dotados pelos carismas do Espírito Santo,submetidos a Cristo Jesus, em unidade com a Igreja, somos chamados a fomentar a renovação e o incremento da mesma, como de todos aqueles que estão distantes e a “estabelecer, então, o Reino de Deus, iniciado pelo próprio, quando aparecer Cristo nossa vida (Cl 3,4) e “a própria criatura será libertada do cativeiro da corrupção para gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8,21; LG 9,25).

Somos chamados a desempenhar o apostolado da “vida nova” (Rm 6,4) em Cristo Jesus, um apostolado vivido no Espírito Santo e na graça. Um apostolado vivido em comunhão com o Filho de Deus (1Cor 1,9),. com seus sofrimentos (Fl 3,10), temos “participação” no seu sangue e no seu corpo (1Cor 10,16). Um apostolado vivido em comunhão com o Espírito Santo: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo esteja com todos vós!” (2Cor 13,13). O Espírito, que nós “participamos”, nos alcança os dons espirituais, a caridade, e os outros “frutos” seus, os carismas.

Estes dons aparecem como uma participação na pessoa do Espírito: é uma pessoa divina que se comunica a si própria nos dons espirituais. Ele é intermediário entre Deus e os homens; comunicando-se aos homens, parece identificar-se com os dons que dele emanam e assim penetrar nas realidades deste mundo. O Espírito Santo está presente nos dons espirituais ( O cristão na teologia de São Paulo – L. Cerfaux – Ed. Paulinas, São Paulo, 1976, p. 223).

Através dos carismas o mundo vê Deus atuando em seu meio, dando testemunho de sua presença. Os carismas abrem valas profundas, na alma dos homens, de vida nova, no Espírito Santo.

c) Os carismas são dados para o bem comum

“Tudo e todas as riquezas derramadas têm como finalidade o bem comum.” Assim nos exorta o Catecismo da Igreja Católica, 951s.: “Tudo tinham em comum” (At 4,32). Tudo o que possui o verdadeiro cristão deve considerá-lo como um bem em comum e deve estar disposto a ser diligente para socorrer o necessitado e a miséria do próximo. O cristão é um administrador dos bens do Senhor (cf Lc 16, 1-3). Na comunhão da Igreja, o Espírito Santo, “reparte graças especiais entre os fiéis” para a manifestação do Espírito para proveito comum” (1Cor 12,7), e para ajudar o povo de Deus a alcançar a santidade”.

Os carismas do Espírito Santo, concedidos a todos por ocasião do batismo e intensificados na Crisma, também são chamados de dons carismáticos ou de dons de serviço. O Espírito Santo nos capacita com estes dons para servimos à Igreja de Cristo, através dos irmãos. Os carismas são, portanto, dons de poder para o serviço da comunidade cristã.

Essa ação poderosa do Espírito Santo que operou nas ações redentoras de Jesus, necessita e continua agindo em todos aqueles que crêem e são batizados: “Estes milagres acompanharão os que crêem: expulsarão os demônios em meu nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes” (Mc 16,15).

Os carismas manifestam que Jesus está presente e age através do seu Espírito por meio de nós (Jo 14-19) e que nos capacita a cumprir o grande mandamento de Jesus: “Ide por todo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).

Os carismas são os sinais que acompanham e confirmam a nossa pregação. São sinais visíveis de poder e do amor de Deus.

d) Os dons carismáticos provocam uma diferença significativa na evangelização

A “força do alto” derramada nos corações dos fiéis como cumprimento da promessa do Pai, que se evidencia através dos dons carismáticos, manifestações do poder de Deus, provoca uma diferença significativa entre a ação evangelizadora de um fiel que se deixa conduzir por ela e um fiel que não permite a sua ação. Aquele que  evangeliza exercendo os dons carismáticos, incrementa as suas possibilidades humanas. A investidura carismática em comunidade da Igreja, em todo o mundo, tem gerado e sustentado grande número de evangelistas dedicados e eficientes (Avisar a chama, p. 16), com novo vigor, com nova capacitação, nova alegria, novo júbilo, nova exaltação, novo louvor, levando em si o poder transformador do Espírito (1Cor 2, 1-5) que toca jovens, crianças, adultos, idosos de todo tipo de formação, de variadas culturas e nacionalidades. Por outro lado, o evangelizador que não tem uma vida plena no Espírito, desenvolve muitas vezes um apostolado frio, racional, sem motivação, sem ânimo.

Constatamos, na experiência concreta de uma vida mais plena no Espírito, concretizar-se o que a Constituição Dogmática Lumen Gentium relata sobre os carismas: “Não é apenas através dos sacramentos e dos ministérios que o Espírito Santo santifica e conduz o povo de Deus e o arma de virtudes, mas, repartindo seus dons “a cada um como lhe apraz” (1Cor 12,11), distribui entre os fiéis de qualquer classe mesmo graças especiais. Por elas os torna “aptos e prontos” a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios que contribuem para a renovação e maior incremento da Igreja” (LG, 12).

Com isso, não queremos restringir a ação do Espírito Santo; ao contrário, reconhecemos que Ele age tanto no cristão com os carismas, na sua vida normal, e na sua  evangelização, como também age no cristão que não recebeu nenhum carisma ou desconhece sua existência. O que constatamos na prática apostólica é que, quando evangelizamos acompanhados dos carismas, colhemos frutos com muito mais abundância. Hilário de Poitiers (315-367), doutor da Igreja, nos fala que “Os carismas, utilizados de modo apropriado, produzem muitos frutos, pois estes dons penetram-nos como chuva suave e, pouco a pouco, produzem frutos abundantes (Tratado sobre os Salmos, 64, 15; Corpus scriptorum eclesiásticorum latinum, 22,22, 246). Este Padre da Igreja está convencido que os carismas fazem diferença e são eficazes na evangelização.

Cirilo de Jerusalém, também doutor da Igreja (315-337) tem a opinião que a Igreja de Jerusalém, como todas as outras, situa-se em uma sucessão carismática, uma história do Espírito iniciada com Moisés. Ele diz: “O Espírito é uma nova espécie de água”, (Palestras Catequéticas, 16,11; Cyrilli hierosolymmarum archiepiscopi opera qua e supersunt omminia, 2 vol.; Ed. WK Reischi, J. Rupp; Munique: Stahl 1846-1860,2,216) e afirma ainda: “Grande, onipotente e admirável é o Espírito Santo nos carismas” (Palestra Catequéticas, 16,22; Cyrilli hierosolymmarum archiepiscori opera os leogos têm carisma” (PC 16,20; Cao 2,234)). Cirilo afirma que em Pentecostes os apóstolos “ficaram completamente batizados”, (Pc 17,15; Cao 2,268), “batizados sem faltar nada” (Pc 17.15; Cao 2, 269, 270), “batizados em toda plenitude” (Pc 17,18; Cao 2,232).


 

Autor: Tácito Coutinho – Tatá

Comunidade Javé Nissi