Como viver a desolação na vida espiritual?

Como viver a desolação na vida espiritual?

Santo Inácio de Loyola ensina que existem dois momentos na vida espiritual de todo cristão: A consolação e a desolação.

A consolação se refere à fase da vida espiritual onde sentimos com maior intensidade a presença de Deus, somos consolados com manifestações do Espírito Santo, dons de lágrimas, alegria, paz, sabedoria.  Mas de maneira natural para nosso crescimento, entramos em outra fase de nossa vida espiritual, a desolação.

A desolação é a fase onde se desperta a aridez espiritual, as consolações somem. Nessa fase espiritual, muitos cristãos eufóricos e alucinados desistem diante das dificuldades da caminhada. Desistem por que se apegaram mais aos sentimentos proporcionados na oração do que as convicções de fé.

Aqui encontramos um grande perigo da vida espiritual

– O SENTIMENTALISMO –

Padre Garrigou em um dos grandes clássicos da espiritualidade “As três Vias e as três conversões da vida espiritual” segue um dos trechos do livro:

“O sentimentalismo é, para a sensibilidade, uma afetação de amor de Deus e do próximo que não existe suficientemente na vontade espiritual. Então, a alma procura a si mesma mais do que a Deus; daí, para tirar a alma desta imperfeição, Deus purifica a alma pela aridez da sensibilidade”.

Se verdadeiramente nesta aridez a alma não é suficientemente generosa, então cai na preguiça espiritual, na tepidez, e não mais tende suficientemente à perfeição.

“Igualmente, pelo amor desordenado de si mesmo, vicia-se o labor intelectual ou apostólico, pois nele buscamos satisfação pessoal, buscamos o louvor em si mais do que a Deus ou à salvação das almas. Assim, o pregador pode tornar-se estéril ‘como um bronze que soa ou um címbalo que tine’ (1Cor 13,1). A alma se retarda, não é mais iniciante, porém não avança ao estado dos aproveitados; permanece uma alma retardada, como um menino que, por não crescer, não permanece criança e nem se faz adolescente ou adulto normal, mas um homúnculo deforme. Ocorre algo similar na ordem espiritual, e isto provém do amor próprio desordenado, do sentimentalismo, do qual nasce a esterilidade da vida”.

(Pe. Garrigou Lagrange, ‘As Três Vias e as Três Conversões’, ed. Permanência)

Padre Garrigou nos exorta sobre os perigos de viver uma espiritualidade baseada no sentimentalismo. De ficarmos apenas no leite, na busca de emoções, lágrimas, visões, repouso no Espírito… Ao invés de alimento sólido, onde aprofundamos as convicções de fé.

Aqueles que não ultrapassam essa experiência emocional, com a desolação se sentem desmotivados, quando “a fé esfria”.

As canções já não os encantam, já não são mais capazes de fazer brotar as lágrimas. Ele já não “sente” mais nada durante oração…, e desiludido se pergunta por quê?

Nas orações, clama a Deus: “Por que me abandonas? Porque não sinto mais a tua Presença?”… Depois de mais algum tempo, começa a perder a vontade de ir à Igreja, de rezar… “Se não ‘sinto’ a Presença e nem as consolações de Deus, para quê insistir?”, é o que pensa; lá no fundo, começa a se questionar se tudo não teria sido, afinal de contas uma ilusão.

Todavia, a questão mais profunda e importante que precisa ser trazida à tona nestes casos é esta: será que aquele sentimentalismo todo era realmente fé cristã? Será que se emocionar, chorar, cantar entusiasmado, dizer orações a Deus com grande empolgação e outras demonstrações externas como estas são realmente o sinal de uma autêntica e saudável vida em Cristo?

Diz a carta aos Hebreus: “A fé é o fundamento da esperança; é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). “Não se vê”, neste caso, é alusão a essa relação que se pode ter com a fé – e que de fato costumamos ter, nos primeiros tempos logo após a nossa conversão – por meio dos sentidos físicos. Algumas pessoas chegam, sim, a ter visões supranaturais, embora estes sejam casos raros. Mas se dizemos que a fé é uma certeza a respeito daquilo que não se experimenta por meio dos sentidos físicos, podemos afirmar que a fé é uma certeza a respeito daquilo que não se sente emocionalmente; ao menos não necessariamente. A fé cristã está, sem dúvida, mais relacionada à vontade do que às meras e fugazes emoções humanas.

Na biografia de santa Gemma Galgani consta que ela havia recebido os estigmas de Cristo muito cedo. Ela sempre oferecia seus sofrimentos à Deus em expiação pelas almas. Um fato interessante da sua vida é que ela vivia de modo tão santo que era sempre vista uma luz intensa ao seu redor enquanto rezava, mas também recebia flagelações de demônios em suas provações. Nossa Senhora lhe aparecia muitas vezes em sonhos. Certa vez, o próprio Senhor Jesus Cristo lhe apareceu e lhe propôs algo que para muitas pessoas seria algo extremamente difícil de compreender: ela não sentiria nada quando rezasse; teria mesmo indisposição para a oração e sofreria por não sentir mais nem sequer o mínimo de emoção ao orar, ao ir à Missa e mesmo quando fosse receber os santos Sacramentos(!).

Compreendemos, hoje, que o Cristo propôs isto a Gemma Galgani porque queria que ela sentisse o que Ele sentiu na sua Paixão: a extrema angústia e terror, a ponto de Ele mesmo – Deus e Salvador da humanidade, Senhor das Tempestades, Princípio e Fim de todas as coisas – exclamar: “Pai, porque me abandonastes?”… Nosso Senhor sofreu assim porque, mesmo sendo plenamente Deus, era também plenamente homem.

E consta que Gemma aceitou sua pesada cruz com paciência; mesmo não sentindo nada, mesmo com a provação das enfermidades que assolaram a sua vida, perseverou na oração, aguentou os açoites do demônio e não cessou de oferecer tudo a Deus, em reparação dos pecados do mundo, pelas almas que padecem no Purgatório, em desagravo às ofensas sofridas por Nosso Senhor e pelo bem de toda a Igreja, seguindo a exortação do Apóstolo:

“Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja.”(Col 1,24)

Aí está um exemplo maravilhoso do que significa a verdadeira e autêntica fé cristã. Esta serva e guerreira de Cristo – esta brava filha da Igreja e irmã dos Santos do Céu – já não “sentia” mais nada, já não desfrutava de doces emoções, porém mesmo assim mantinha a fé de que Deus não iria desampará-la e que, na vida futura, iria desfrutar da Presença de Deus, Bem dos bens e Fonte de toda a vida, felicidade e alegria.

Se vivo uma fase de desolação ou são muito raras as consolações espirituais durante a comunhão com Cristo, o que devo fazer, para progredir na espiritualidade?

A resposta encontramos na carta aos hebreus capitulo 12,2

Mantenha os olhos fixos em Jesus, que vai a nossa frente!

Na desolação, não desista da oração, mesmo se estiver indisposto. Esta luta interior agrada a Deus e o fará crescer e amadurecer muito espiritualmente.  Na desolação, persevere na missão, é na missão que o Espírito Santo mais age. (Paulo VI). Como Deus se manifesta quando nos colocamos em seu serviço. Na desolação, persevere na vida comunitária, se existe um lugar onde o Espírito Santo tem prazer de ser derramado, esse lugar é o cenáculo, a Igreja. Aleluia!

O mesmo Santo Inácio nos consola, depois da desolação, sempre vem a consolação. Passando pelo vale do pranto, a primeira chuva o cobre de bênçãos. (Salmo 84,7).   Mantenha os olhos fixos em Jesus, que vai a nossa frente! Aleluia! Pois o melhor de Deus está por vir!

Fontes:

Biblia CNBB

http://misticainaciana.blogspot.com.br/2012/10/consolacao-e-desolacao.html

http://www.ofielcatolico.com.br/2006/08/o-perigoso-sentimentalismo-e.html


 

Autor: Rodrigo dos Santos Jesus (Rodriguinho) – Ministério Marcos

Comunidade Javé Nissi