Atividade Diabólica Extraordinária

Atividade Diabólica Extraordinária
  1. Considerações

Este segundo tipo de atividade diabólica é chamado de “extraordinária” porque é muito rara. De acordo com a providência e governo de Deus, o mundo segue as leis e estruturas que foram decretadas pelo Criador e sintetizadas naquilo que é chamado de lei natural. O que quer que ocorra fora desta estrutura – prodígios, milagres, fenômenos preternaturais – é excepcional e, portanto, extraordinário.

Contudo, diferentemente do fenômeno “ordinário” chamado tentação diabólica, a atividade diabólica extraordinária é perceptível aos sentidos; por isso pode ser examinada, estudada e diagnosticada.

Existem três tipos de fenômenos diabólicos extraordinários: infestação local, opressão diabólica e possessão diabólica. Devemos tratar de cada um e então discutir o diagnóstico destas intervenções diabólicas.

  1. Infestação local

De acordo com diversas opiniões: a infestação diabólica local é um fenômeno misterioso que ocorre durante um período de tempo numa localidade ou lugar específico, habitado ou não. Pode ser reconhecida por manifestações estranhas e algumas vezes aterrorizantes que indicam a presença diabólica: sons e barulhos cuja origem e natureza não podem ser explicadas; sons de passos; gemidos ou gritos; gargalhadas; movimento súbito de objetos; odores agradáveis ou desagradáveis; rajadas de ar frio quando não existe vento; aparição de figuras fantasmagóricas.

  1. Opressão diabólica

Esta intervenção diabólica ocorre quando o diabo focaliza seu poder numa pessoa a fim de obter o controle do indivíduo. Mas nunca atinge o ponto de uma influência geral e total ao indivíduo, como acontece com a possessão diabólica. Em outras palavras, a atividade do diabo é extrínseca à pessoa; não prejudica o uso da razão ou do livre arbítrio. Apesar disso, o diabo ataca o indivíduo de uma maneira tão intensa e sensível que não há dúvida de sua presença e atividade.

O indivíduo está completamente ciente de que está sendo vítima de violência diabólica. Embora seja uma atividade diabólica extraordinária, e, portanto, um fenômeno raro, é mais freqüente do que a infestação local ou a possessão diabólica.

As vítimas da opressão diabólica podem ser pessoas que levam vidas santas; na verdade, algumas delas foram canonizadas como santos. Podemos mencionar os seguintes exemplos; Santa Catarina de Sena (l 347-1 380), São Francisco Xavier (l 506-1552), Santa Teresa de Ávila (1515-1582), Santa Madalena de Pazzi (1566-1607), Santa Rosa de Lima (1586-1617), São João Vianney (1786-1859), São João Bosco (1815-1888), e Santa Gemma Galgani (1878-1903). Neles, o propósito da atividade diabólica é atacar por todos os meios possíveis a sua bondade, fidelidade e amor a Deus.

A opressão diabólica pode ser também classificada como uma tentação particularmente violenta e prolongada que é caracterizada por fenômenos externos assustadores.

Em acréscimo às tentações súbitas, violentas e persistentes, existem outras manifestações como: fantasmas na imaginação que persistem a despeito de todo esforço para afugentá-los; ímpetos inexplicáveis de raiva, desespero ou amor sentimental; e finalmente odores nauseantes, barulhos estranhos, palavras ou canções – muitas vezes blasfemas ou obscenas – ou a sensação de abraços provocantes.

Algumas vezes ocorrem aparições que são fascinantes, sedutoras ou assustadoras e o diabo as usa para tentar, cortejar ou amedrontar o indivíduo. Outras vezes a vítima pode ser atacada, golpeada, jogada ao chão; pode haver dores súbitas severas, tapas, socos ou arranhões e outros tormentos corporais. Ainda mais chocantes são os incidentes de levitação (erguimento no ar sem qualquer sustentação), telecinesia (súbitos e inexplicáveis movimentos de um corpo no espaço) e outros estranhos e assustadores fenômenos.

  1. Possessão diabólica

A possessão pelo diabo é o mais sério dos três tipos de atividade diabólica extraordinária. Como indica o nome “possessão diabólica”, consiste numa extrema ação do diabo sobre uma pessoa a ponto de obter um total e despótico controle de seu corpo e de suas faculdades naturais (anímicas). A vítima torna-se um instrumento cego do diabo, e por isso a palavra grega “energumen” era também usada para designar uma pessoa possuída por um espírito maligno. Contudo, uma vez que a pessoa possuída não tem consciência de suas ações durante o ataque diabólico – e muito menos capaz de exercer qualquer controle – a vitima de possessão não é responsável por suas ações, ainda que ultrajantes, maldosas ou perversas.

A possessão diabólica não é a substituição da alma-espírito da pessoa, pelo demônio, pois se isso ocorrer teríamos a destruição da pessoa, o que não é certamente vontade de Deus.[1]

Neste estudo, quando nos referirmos à possessão, sempre será dentro deste significado: uma extrema ação do diabo sobre uma pessoa a ponto de obter um total e despótico controle de seu corpo e de suas faculdades comuns.

Existem dois fatores envolvidos na possessão diabólica: a atuação extrema do diabo sobre um indivíduo e o exercício do poder diabólico. No que diz respeito à presença do diabo, uma vez que o diabo é um ser espiritual e imaterial, ele está no lugar onde age; ele não é limitado pelo espaço, tempo ou lugar.[2] Portanto, um corpo humano poderia sofrer a ação de vários demônios, ou um demônio poderia afetar vários corpos humanos um a cada vez.

Com relação ao exercício do poder diabólico, o demônio não está sempre e continuamente ativo em casos de possessão. Há períodos de calma e quietude que são alternados por períodos de crise, sendo que estes ocorrem geralmente quando há contato com algo sagrado. É claro, como ser espiritual o diabo poderia estar continuamente ativo na vítima, e talvez o preferisse; mas a vítima não seria capaz de suportá-lo, nem Deus o permitiria. Mas a pergunta é feita: existem casos autênticos de possessão diabólica e, assim sendo, por que Deus os permite?

a) Possibilidade de Possessão Diabólica

Se se admite a existência do diabo como um ser espiritual, deve-se também admitir a possibilidade de possessão diabólica. Não há nada para impedir o diabo de atuar sobre um corpo humano e assim usá-lo como instrumento de seus propósitos. Nada a não ser Deus em seus impenetráveis desígnios, pode permitir (ou não) que o diabo atue assim sobre uma pessoa como se tomasse sua posse (daí o nome possessão). E não há nada que uma pessoa possa fazer para impedir que seja atacada pelo diabo se Deus o permitir que aconteça. É claro, a possessão diabólica não é em nenhum sentido um mal moral ou uma questão de pecado da parte daquele que é possuído.

Isto não e algo restrito ao campo da possibilidade; possessão diabólica é uma realidade. Existem numerosas referências à possessão diabólica no Evangelho, e são uma verdade indiscutível porque são sustentadas pelo testemunho de Deus. Algumas citações: Mt 4. 24; 8; Mc 1. 32-34; Lc 4. 40-41[3].

No tempo de Cristo havia muitas pessoas possessas, talvez mais do que em qualquer outro tempo da história, e isto pode muito bem ter sido por um desígnio especial da economia divina. Cristo veio para destruir as obras do demônio, para destruir o “príncipe deste mundo” (Jo 12, 31). Por isso era conveniente que Ele demonstrasse seu poder sobre o reino de Satanás através de exemplos concretos, e, a prova mais convincente seria a expulsão dos maus espíritos das pessoas possessas.

Desta forma, a qualidade de Messias e a divindade de Cristo podiam ser manifestadas claramente, era oportuno que houvesse numerosos casos de possessão. Podemos imaginar que o número de casos permitidos por Deus pode ter sido muito menor do que o diabo teria desejado, uma vez que ele tem um terrível ódio pelo gênero humano. Especialmente no tempo de Cristo ele teria desejado mostrar seu ódio de uma forma visível, vendo que seu adversário era Aquele que tinha vindo para derrotá-lo.

A atividade perversa do diabo continuou mesmo após o tempo de Cristo, embora de uma forma mais limitada à medida que o Reino de Cristo é gradualmente estabelecido através do mundo. Isto pode ser concluído a priori a partir do fato que Jesus deu poder aos apóstolos e discípulos de expulsar demônios (cf. Mt 10. 1 e 8; Mc 5, 14-15; 6. 7; Lc 9. 1; 10. 17-20) e uma promessa similar foi feita a todos os que crêem (cf. Mc 16. 17). Teria sido inútil conferir tal poder se não houvesse ocasião de usá-lo. Mas o fato e que através dos séculos tem havido casos nos quais o poder e usado e sua eficácia comprovada.

Por exemplo, há numerosos testemunhos do tempo dos apóstolos (cf. At 5, 14-16; 8, 5-8; 16, 16-18; 19, 11-16). Houve também numerosos casos durante o período patrístico, registrados aqui e ali nos volumes da patrologia Latina e Grega. De fato, os Padres da Igreja usaram a expulsão de demônios como uma prova da verdade da religião cristã. No suceder dos séculos, casos de possessão diabólica são descritos por escritores eclesiásticos, na vida dos santos, e em tratados particulares assim como em enciclopédias teológicas.

No passado, a Igreja emitiu diretrizes para corrigir abusos e para prover um critério prudente para o diagnóstico e terapia da possessão diabólica. As seguintes fontes são alguns exemplos: Concílio de Elvira (305 d.C.); Concílio de Cartagena (398 d.C.); Primeiro Concílio de Orange (441 d.C.); Décimo Primeiro Concílio de Toledo (657 d.C.); Primeiro Concílio de Milão (1576 d.C.); Concílio de Salerno (1596 d.C.).

O que originou grande parte da legislação foi a credulidade injustificável daqueles que muito prontamente atribuíam fenômenos ou sintomas ao diabo. Isto, contudo, não justificava uma sistemática recusa a acreditar em possessão diabólica; na realidade, a Igreja tem sustentado firmemente este ponto de vista mesmo ao corrigir abusos.

b) O Propósito da Possessão Diabólica

As razões para a possessão diabólica podem ser investigadas sob três diferentes aspectos: o diabo, a pessoa possessa e Deus.

1º. No que diz respeito ao diabo:

A principal razão pela qual o diabo e levado a possuir uma pessoa e a grande satisfação que ele obtém por molestar seres humanos e usa-los para expressar seu ódio a Deus e a tudo que é sagrado. Mas esta é uma pequena satisfação, porque tudo que o diabo faz depende da permissão de Deus que dispõe as coisas para um propósito bom: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28). Então, qualquer que seja a satisfação que o diabo obtém esta não diminui em nada seu sofrimento e tormento.

O diabo também deseja tomar posse das pessoas porque, sendo excessivamente orgulhoso, ele pode assim manifestar seu poder e personalidade, ganhar a admiração e exaltação de alguns homens e talvez até mesmo ser aclamado como um deus – uma ambição que ele nunca renunciou. Isto ficou evidente quando ele tentou Jesus dizendo: “Dar-te-ei tudo isto se. prostrando-te diante de mim. me adorares” (Mt 4, 9).

2º. No que diz respeito à pessoa

No que diz respeito à pessoa que é possuída, não existe base para dizer que haja qualquer predisposição para a possessão diabólica. Em primeiro lugar, não podemos dizer que Deus predispõe certas pessoas para a possessão diabólica, apesar de que Ele tem suas razões para permitir que aconteça este tormento a uma pessoa.

Com a permissão de Deus, o diabo pode agir sobre qualquer ser corporal: ele não está limitado apenas às pessoas só porque possuem físico ou mente.

Mas e quanto à predisposição baseada em diferenças sexuais? Alguns autores sustentariam que a preferência do diabo pelas mulheres ou sua predisposição para a possessão diabólica pode ser provada pelas estatísticas.

A verdade e que o diabo não é um ser sexual e, portanto, dificilmente poderia se dizer que tem preferência por um sexo sobre o outro. Os casos de possessão autênticos são tão raros que as estatísticas, até onde interessam, não dizem nada sobre qualquer predisposição à possessão diabólica baseada na sexualidade.

Admitindo que não existem predisposições físicas ou psíquicas para a possessão diabólica, nós podemos ao menos atestar uma predisposição moral para possessão diabólica? Certamente falando. Deus poderia em alguns casos raros permitir que o diabo tomasse posse de uma pessoa pecadora, mas isto não nos autoriza a falar de uma “predisposição” para a possessão diabólica como regra geral. As razões pelas quais a possessão diabólica ocorre são bem diferentes aos olhos de Deus.

Poderia também parecer que o diabo seria um pouco relutante a tomar posse de indivíduos pecadores, já que em certo sentido eles já são vítimas do diabo – especialmente pecadores obstinados.

São Gregório disse o diabo não aborrece aqueles que já são seus. Eles vão continuar em seus pecados sem nenhuma indução da parte do diabo. Se o diabo estivesse para tomar posse deles, eles não mais seriam capazes de pecar, uma vez que estariam sob o total e despótico controle do diabo.

Se alguém quer realmente falar sobre algum tipo de predisposição – embora esta não seja a palavra correta – esta teria de ser pertinente à bondade. É a bondade que pode aceitar o sofrimento das mãos de Deus; é a bondade que sabe corno usar o sofrimento para um bom proveito: é a bondade que é capaz de transformar o sofrimento em um tesouro precioso para si e para os outros.

3º. No que diz respeito à Deus

Para considerarmos o papel de Deus na possessão diabólica, deveríamos repetir novamente que apesar das explosões blasfemas e sacrílegas que freqüentemente ocorrem, a possessão pelo diabo não e um mal moral, isto físico, embora terrível e sério, e Deus o permite por algum bom propósito, como Ele faz com qualquer outro tipo de sofrimento e aflição.

Podemos pensar em várias razões porque Deus permite a possessão diabólica; na realidade, o autor de um tratado chamado Ars exorcistica. publicado em 1606, nos dá 14 razões. Mencionaremos cinco principais, mas deveria ser notado que é impossível especificar exatamente qual razão ou motivo se aplica a um caso em particular. Nos é suficiente saber que os decretos de Deus são bons e justos e que Ele nunca permitiria qualquer coisa exceto por uma razão justa e boa.

A primeira razão porque Deus permite a possessão pelo diabo é por sua própria honra e glória. As perfeições divinas ou atributos são claramente manifestados em casos de possessão: a divina providência, que restringe e controla a atividade e influência do diabo, de modo que ele faça somente o que Deus permite; a onipotência divina, porque o diabo treme diante de seu Nome; a sabedoria divina, que é capaz de extrair o bem do mal; a divina justiça, que permite que os pecadores recebam o que suas más ações parecem estar pedindo, permitindo assim que o diabo tome posse delas; bondade divina, porque Deus deu à Igreja e aos seus ministros poder sobre os maus espíritos. Tudo isso é resumido na resposta dada por Jesus quando seus discípulos perguntaram; “Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?” e Jesus respondeu: “Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus” (Jo 9. 2-3).

Uma segunda razão porque Deus permite a possessão diabólica é para provar a verdade da religião cristã, que é a única religião em que se deu poder sobre os maus espíritos.

Os Padres da Igreja usaram este mesmo método de raciocínio para defender a Igreja em suas apologéticas e para provar a verdade da fé cristã. Talvez esta também seja a razão porque os primeiros missionários muitas vezes encontraram casos de possessão diabólica entre os infiéis e os incrédulos; o rito do exorcismo podia ser uma poderosa prova da origem e autoridade divinas do cristianismo.

Uma terceira razão porque Deus permite ao diabo tomar posse de um indivíduo, embora possa não parecer plausível a primeira instância, é o benefício espiritual da vítima. Se o indivíduo pode suportar esta prova com resignação à vontade de Deus, ele (ou ela) pode praticar e desenvolver as virtudes da paciência, humildade, amor a Deus e abandono à sua Santa Vontade. Desta forma a formação espiritual é favorecida e há um aumento de mérito. Em adição, tem-se a oportunidade de reparar faltas passadas através de um sábio aconselhamento. São João Crisóstomo afirmou: “Pessoas possuídas podem obter um duplo benefício de sua condição. Primeiro podem tornar-se mais santos e bons; segundo, tendo pagado o débito de seus pecados aqui na terra, eles podem se apresentar puros diante do Senhor”.

Uma quarta razão para a possessão diabólica é que esta pode ser uma fonte de instrução salutar e um motivo de conversão para aqueles que testemunham as manifestações assustadoras do poder e da malícia do diabo. A possessão diabólica pode levar os ateístas a admitir a existência de uma realidade espiritual e pode fazer os crentes meditarem mais sobre as verdades eternas. Os terríveis sofrimentos das pessoas possessas são lembretes de que sofrimentos ainda piores esperam os eternamente condenados.

Isto em contrapartida deveria introduzir nos observadores um horror ao pecado grave, que é a única coisa que poderia causar sua condenação eterna. Ao mesmo tempo, eles começam a compreender mais claramente o quão intensamente o diabo odeia o gênero humano e procura a ruína das almas. Isto deveria fazê-los resolver rejeitar o diabo, suas mentiras e seus enganos.

Por último. Deus pode permitir a possessão diabólica como uma punição pelos pecados de um indivíduo. Eu acredito que este seria um caso excepcional, mas não iria de forma alguma contradizer a divina justiça. Deus poderia certamente usar os demônios para punir nesta vida o que será punido através dos demônios na próxima. De fato, poderia ser um ato de misericórdia da parte de Deus se a punição levasse o pecador à conversão. Assim, São Paulo consignou ao diabo o pecador escandaloso de Corinto: “seja esse homem entregue a Satanás, para mortificação do seu corpo, a fim de que a sua alma seja salva no dia do Senhor Jesus” (1Cor 5,5).

[1] Conforme vimos anteriormente: a teoria que explica a possessão como “informação” do corpo humano pelo espírito maligno é totalmente errônea. Um espírito finito exercer uma causalidade formal num “outro” indivíduo é contraditório, pois a identidade de ser advém precisamente da causa formal.

[2] cf. São Tomás de Aquino, Suma Teológica. l, 8, 2, ad 1

[3] Sobre a questão da possessão diabólica no N.T.ver a Instrução 1: Um breve estudo teológico da demonologia cristã


Autor: Ministério de Formação Paulo Apóstolo

Comunidade Javé Nissi