Os Fenômenos das Atividades Diabólicas Extraordinárias

Os Fenômenos das Atividades Diabólicas Extraordinárias
  1. Considerações

É necessário antes de tudo a manter um espírito sereno e a mente aberta, junto com grande prudência e uma discreta aproximação da incredulidade, quando discutimos o fenômeno da atividade diabólica e o preternatural em geral. Digo isso a fim de prevenir os dois extremos de se negar tudo ou ser impulsivo a acreditar que o diabo está sempre presente e ativo em todo evento estranho.

  1. Evitando o ceticismo

Em casos de atividade diabólica extraordinária, como nos casos de fenômenos místicos extraordinários, existem sintomas e manifestações similares àqueles estudados na psiquiatria e na parapsicologia. Seria ilógico, contudo, proceder, a partir desta similaridade, uma rejeição sistemática de todo fenômeno preternatural ou negar a possibilidade de uma possessão diabólica. Isto constituiria um julgamento a priori que não apenas é não-científico, mas anularia qualquer tentativa de se fazer um diagnóstico.

A similaridade de sintomas em vários indivíduos não necessariamente indica que eles procedem da mesma causa, especialmente se existem diferenças em modalidade e circunstâncias. Antes, isto impeliria a um exame diagnóstico cuidadoso, muito melhor do que postular uma interpretação unívoca do fenômeno.

Além disso, se seria ilógico e não-científico atribuir automaticamente todos os sintomas similares a uma mesma causa, é igualmente não-científico partir da hipótese de que todos fenômenos similares procedem das mesmas forças naturais. Neste caso estar-se-ia na posição absurda de atribuir á natureza humana certos poderes que estão alem de suas capacidades.

Todavia, existem algumas pessoas – e mesmo alguns teólogos – que pensam desta forma, especialmente no que se refere à possibilidade de uma possessão diabólica. Ao fazê-lo, eles não apresentam todo o conjunto de aspectos da possessão diabólica, e ignoram ou no mínimo subestimam qualquer fenomenologia que não se encaixe em seu julgamento. Isto é especialmente verdadeiro por parte daqueles médicos que se restringem aos sintomas psiquiátricos e por parte daqueles parapsicólogos que se concentram fundamentalmente no fenômeno paranormal.

As enfermidades psíquicas não apresentam como levitação, telecinesia, conhecimento do oculto ou outras manifestações deste tipo. Nos manuais de psiquiatria e psicologia não se encontram tais fenômenos relacionados como sinais de distúrbio mental.

Na realidade, o perfil de uma pessoa que é sensitiva não admite nenhuma sintomatologia psiquiátrica concomitante, e o “sensitivo” certamente não é descrito por nenhuma dessas sintomatologias. Não há até o presente um critério que relacione todos os fenômenos possíveis. Em adição a isto, mesmo quando os fenômenos são idênticos, há uma grande diferença na totalidade dos fenômenos numa pessoa possessa e num médium ou “sensitivo”.

O ceticismo dos médicos é impelido por uma generalização injustificável do que eles observam nos institutos psiquiátricos ou na prática particular. Se isto é menos repreensível do ponto de vista da ética profissional, isto não diminui a irrazoabilidade de seu pré-julgamento.

  1. Evitando a credulidade exagerada

Enquanto os médicos e cientistas tendem a dar uma explicação natural para os fenômenos possíveis, alguns dos fiéis e certos sacerdotes tomam a posição oposta e também acabam errando, por causa de seu desconhecimento da patologia neurológica e mental e de sua falha em seguir as diretrizes dadas pela Igreja. Como resultado, eles atribuem ao diabo certos distúrbios que são de origem puramente natural.

Esta atitude tem um efeito pernicioso sobre a religião. Um sobrenaturalismo exagerado suscita falsos julgamentos que são obstáculos a uma formação religiosa e moral equilibrada. Isto também alimenta um senso de desconfiança, se não o completo desprezo e desdém, aos teólogos em geral, ao Magistério da Igreja e verdades dogmáticas, levando assim á incredulidade.

Escritores que atribuem tudo à intervenção demoníaca raciocinam assim: existem certas manifestações para as quais não existe explicação, e uma vez que não podem ser atribuídas à intervenção de Deus ou dos anjos ou aos mortos, resta aí apenas um autor possível, o diabo.

À primeira vista isto parece bastante sensato, mas baseia-se na suposição de que a alma não tem poderes, salvo aqueles que ela comumente demonstra; isto é neste caso essencialmente uma visão superficial, e aqueles que a sustentam parecem não perceber o fato de que estão abrindo a porta precisamente àquele tipo de demoniomania que por uns 500 anos levou o ocidente a uma caça às bruxas. Além disso, atribuir ao diabo como se ele fosse um tipo de deus ex machina, toda vez que não podemos pensar em alguma explicação natural para uma coisa, é realmente não-científico.

O ensinamento da Igreja está igualmente bem afastado de ambos extremos, tanto do materialismo quanto da demoniomania. A Igreja não nega a possibilidade de uma possessão diabólica e nem possui uma ordenação especial conferindo poderes de exorcismo para a expulsão de demônios, mas ela nos recomenda a tratar tudo como natural até que o contrário seja provada, uma regra que ela aplica com um rigor particular quando supostos milagres são citados num processo de canonização.

Wiesinger, Ocult Phenoma in the Light of Teology, Londres, Buern& Oates, 1957

4.O reconhecimento das atividades extraordinárias – discernimento (Diagnóstico)

É característica das pessoas possuídas ter uma forte e às vezes violenta aversão ao sagrado. Repleto de ódio a Deus e ao homem, o diabo fará tudo que puder para preservar a pessoa possuída de tudo que for bom e religioso; algumas vezes, na realidade, ele irá privar o indivíduo de algo que seja uma necessidade ou uma simples satisfação de ordem moral ou física. Ele usa o indivíduo como meio para exprimir sua atitude maliciosa através de ações e gestos.

A aversão a qualquer coisa que seja sagrada não é a mesma numa pessoa possessa do que numa pessoa que não mais acredita ou não pratica sua religião. Ao contrário, é um ódio veemente, que é manifestado espontânea e violentamente com expressões faciais de raiva, uma completa transformação da fisionomia, ou movimentos convulsivos do corpo. É como se uma personalidade inteiramente diferente tivesse surgido, alternada com a personalidade normal da pessoa que está possuída.

Isto somente, contudo, não é prova de possessão diabólica; é simplesmente uma condição real que pode levar alguém a suspeitar que há algo diabólico envolvido aqui. Porém, esta é uma condição necessária para que eventualmente alguém aplique os critérios de reconhecimento (discernimento). Na ausência destes sintomas, uma pessoa sequer deveria ser considerada como objeto de maiores investigações.

No passado acreditava-se que se uma pessoa manifestasse uma forte aversão ao sagrado e se certos fenômenos específicos fossem verificados, aquele indivíduo era automaticamente julgado como uma vítima de possessão diabólica. Três fenômenos em particular eram considerados cruciais; falar ou entender uma língua previamente desconhecida; identificar objetos a uma grande distância ou escondidos da visão; e exibir força muito além da condição ou da idade de um indivíduo. Tal era o critério de diagnóstico do Ritual Romano, publicado em 1614.

Hoje, entretanto, os três sinais que antigamente eram considerados sobrenaturais foram investigados e não podem mais ser aceitos como prova definitiva de possessão diabólica. Por essa razão o critério deixado pelo Ritual Romano teve diminuído seu valor de diagnóstico. A simples recomendação do Ritual Romano para exercitar-se grande prudência nos casos de suspeita de possessão diabólica se tornou pouco suficiente para se fazer um diagnóstico.

5. Dois tipos de fenômenos

Quando se observa o comportamento exterior de uma pessoa pretensamente possessa, logo se torna evidente que os vários fenômenos e sintomas podem ser classificados sob dois títulos:

Fenomenologia psiquiátrica: sintomas de distúrbio psíquico ou enfermidade.

Fenomenologia parapsicológica: estudados no campo da parapsicologia.

a) Fenomenologia Psiquiátrica

A possessão é caracterizada por um controle despótico que o diabo exerce sobre o corpo da pessoa, usando-a como ele quer após imobilizar o autocontrole do indivíduo. É uma verdadeira “mudança de comando”. O corpo se move fala e age, mas não mais sob o controle do indivíduo: é agora dirigido e manipulado como um instrumento cego, obedecendo a uma força mais forte que o domina vigorosamente.

Em seu comportamento exterior a vítima manifestará uma fenomenologia que é muito semelhante à de certas doenças mental, caracterizada por dupla personalidade ou a presença de um outro princípio que causa um comportamento anormal. Existem na realidade algumas doenças nas quais o paciente, de uma forma mais ou menos contínua, demonstra um comportamento estranho e violento, completamente diferente da sua forma normal de agir.

Em pessoas que são mentalmente doentes, os sintomas podem ser manifestados de diferentes formas, dependendo das idéias dominantes ou obsessivas que se apresentam. Mas em casos de possessão sempre haverá uma forte aversão ao sagrado ou a qualquer coisa que seja uma fonte de consolação espiritual e ajuda para um indivíduo; e em muitos casos a aversão pode se estender ao campo moral e físico.

Em casos autênticos de possessão diabólica o indivíduo pode dar evidências de seu estado anormal através de mudanças e distorções faciais, por meio de um relaxamento completo ou pela rigidez do corpo. Quando solicitado a executar um ato de piedade ou devoção o paciente reagirá de uma forma mais ou menos violenta, com contorções dos membros do corpo, ameaças e gritos assustadores, ou com gestos provocativos, blasfemos ou sacrílegos.

Outras vezes a vítima pode tentar por um fim aos comandos e expectativas do exorcista passando a um estado de completa passividade. A um comando repetido e persistente em nome de Deus para que o paciente execute um ato devocional, tal como beijar uma sagrada imagem ou uma genuflexão, a pessoa possessa pode obedecer, mas o fará com grande repugnância e com desrespeito à pessoa que o estiver ordenando.

Algumas vezes esta repugnância diabólica e também exprimida em relação a algo que tenha sido fonte de apoio moral ou alívio físico para o indivíduo. Depois a pessoa possessa tornar-se-á retraída, evitando a companhia de outras pessoas recusando-se a conversar. Torna-se muito difícil expressar seus desejos, e pode haver sérios distúrbios que afetam as funções corporais. Não é difícil ver que os sintomas precedentes apresentam uma estreita semelhança àqueles que caracterizam certos tipos de doenças mentais e patologias tais como a Síndrome de Tourette.

b) Fenomenologia Parapsicológica

A influência e o poder do diabo serão manifestados no comportamento da pessoa possessa, algumas vezes de uma forma brusca e clara, e outras vezes de uma maneira forçada, limitada e menos evidente.

Os fenômenos seguintes são classificados como parapsicológicos: assumir e permanecer numa postura bastante instável; mover-se em redor e executar ações perfeitamente com os olhos fechados; desempenhar certas funções ou atividades nunca aprendidas, tais como cantar e pintar; falar ou compreender línguas previamente desconhecidas; ter conhecimento oculto de pessoas, objetos ou eventos acontecidos no passado, ou ocultos ou a uma grande distância.

Algumas vezes o paciente se erguerá do chão e permanecerá suspenso no ar (levitação) ou se moverá pelo ar ou executará proezas acrobáticas incríveis. Outras vezes o paciente pode ser capaz de mover objetos ou móveis sem tocá-los ou erguê-los do chão.

Finalmente existem casos de abertura e fechamento de portas e janelas à distância, quadros ou retratos que caem da parede, quebra de objetos à distância, etc.

Este tipo de fenômeno é completamente diferente daquele de ordem psíquica; está acima de todo poder psíquico. No entanto, muitas destas manifestações são similares a fenômenos que estão sendo investigados na parapsicologia.


Autor: Ministério de Formação Paulo Apóstolo

Comunidade Javé Nissi