A Ousadia de Crer

A Ousadia de Crer
  1. Fundamentos da fé[1]:

Diz a carta aos Hebreus que a fé é fundamento da esperança, sem ela é impossível agradar a Deus (Heb 11,1.6). Tiago diz que a fé sem obras é morta (2,17), para Paulo é a fé que nos salva (Ef 2,6-8).

1.1 Fé como virtude e dom:

É dom por que Deus nos concede, não podemos gera-la em nós sem auxílio da graça (1 Cor 13,13; 12, 8). No entanto, esta fé é passível de amadurecimento e pode sujeitar-se há um crescimento. A fé nos é concedida pela graça! Porém, podemos crescer nela, seja pela oração, seja pela formação; não é um crescer porque somos melhores, antes é fruto de um comprometimento, uma busca de intimidade com o Senhor, engajamento em sua Igreja, comunidade de fé. Sentimo-nos impulsionados pelo Espírito Santo a sempre dar um passo a mais, a arriscar, a se doar, a buscar mais conhecimento para servir melhor, trata-se realmente da prática das virtudes!

Necessário nos é, atentarmos ao seguinte fato: não é o carisma manifestado o critério de discernimento para medir o aumento da fé, se é que assim podemos dizer, o crescimento na fé se mede pela intimidade, proximidade, confiança exclusiva em Deus e na sua bondade.

1.2 O verbo: Causa e objeto da fé!

O apostolo Paulo ensina que esta fé é gerada pela pregação (Rm 10, 17); a palavra é criadora, causadora da fé e objeto da fé (Jo 1, 1-3.14). Necessário também é que esclareçamos o seguinte ponto: “A bíblia é palavra de Deus, mas ela não esgota a palavra de Deus. Ela apresenta a Jesus como a palavra (Jo 1, 14), no entanto, Jesus é maior que a bíblia, ela nos apresenta Ele, porém ela não é capaz de açambarcar tudo o que Ele é”!

Jesus é a palavra eterna, criadora de Deus Pai (Jo 1, 1-4). Podemos fazer uma analogia para compreendermos a ação trinitária na criação: O Pai é o pensamento, a intenção, a vontade, que ao se expressar, “falar”, Ele usa o “sopro”, que é o Espírito Santo, nas cordas vocais, que gera a “voz”, que é a palavra Jesus! Essa analogia visa mostrar a ação trinitária do Pai que tudo faz pelo Filho no Espírito.

A todos nos toca “recomeçar a partir de Cristo”, reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” [2](DA, 2007, p.13).

Toda a ação salvífica de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, são ações comunitárias, a trindade é a melhor comunidade, logo percebemos que todo o agir de Deus quer no A.T quer no N.T, são ações concretas de um Deus amor, cujo princípio de ação é a liberdade (II Cor 3, 17). Deus age na história revelando seu amor, que é sua essência, força norteadora de seu agir, que atraí profundamente o ser humano, sendo uma resposta concreta a seu vazio existencial. Deus ao criar o homem deixou um espaço reservado em seu coração para que ele pudesse fazer morada. Na encarnação do verbo, Jesus torna-se um sinal concreto do projeto de Deus a nosso respeito, como sua imagem e semelhança, Jesus é Deus humanado e homem endeusado, ou seja, Ele é Deus, por nós adorado, Ele é homem por nós encarnado! Jesus é para nós fonte de vida, milagre de amor! Crer em Jesus é assemelhar-se a Ele em gestos e palavras (Jo 14, 12). Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o filho de Deus (I Jo 5, 5). E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé (I Jo 5, 4).

  • Pré-disposição para Crer:

Deus é autor da fé! Ele nos criou para ele, e colocou em nós essa disposição a crer, em outras palavras, existe em nós uma propensão, uma atração, que esta inata em nós, é o mesmo que dizer: o ser humano é um ser religioso! Daí ao estudarmos a história das religiões, vemos desde os primórdios que o homem é um ser religioso.

A fé é uma via de ligação da criatura, o homem, com o criador, Deus! Pela fé o homem entra em comunhão com Deus e usufruir das dádivas do criador para esta criatura, e nesta graça Deus nos adota como seus filhos (Jo 1, 12; Rm 8, 15). Enche-nos de seu Espírito, encharcando-nos em seu amor, tornando-nos sua imagem e semelhança produzindo em nós frutos e carismas (1 Cor 12, 7-11; Gl 5, 22).

  1. Ousadia:

Considerando os princípios fundamentais da fé acima elencados, podemos alinhar nossa reflexão para a ousadia de crer! Ser ousado é agir com destemor, coragem, atrevimento, audácia[3]. Em nosso caso, é dar passos concretos na fé! Para muitos, não experimentados ou pouco instruídos, ousadia na fé é dar um passo no escuro!

Ousadia é sinônimo de desafio! Podemos elencar diversos desafios no cotidiano de nossa fé: pregar nas praças, nas escolas, nas universidades, rezar pela cura de doentes em fase terminal; é ousado acreditar em Deus, viver a fé na contra mão do mundo, nadando contra a corrente. Ser um Cristão de convicção é um testemunho de profunda ousadia!

A ousadia na fé é claramente vista quando nos deparamos com pessoas que entregam sua vida para Deus, que se deixam moldar pelo Espírito, passando por uma experiência concreta de conversão, abrindo-se para uma vida nova, cujos princípios fundamentais são norteados pelo evangelho da vida que é Jesus Cisto.

Belas são as palavras do Papa Emérito Bento XVI no início de seu pontificado:

Não temam! Abram, abram de par em par as portas a Cristo!… quem deixa Cristo entrar a não perde nada, nada – absolutamente nada – do que faz a vida livre, bela e grande. Não! Só com esta amizade abrem-se as portas da vida. Só com esta amizade abrem-se realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só com esta amizade experimentamos o que é belo e o que nos liberta… Não tenham medo de Cristo! Ele não tira nada e nos dá tudo. Quem se dá a Ele, recebe cem por um. Sim, abram, abram de par em par as portas a Cristo e encontrarão a verdadeira vida (DA, 2007, p.16).

O texto denota a alegria de se abandonar na fé, alegria que graças a Deus tem tomado o coração de muitos jovens que abrem mão de sua “Liberdade[4]” para consagrarem sua vida a Cristo, num belo testemunho[5] de amor e doação de si mesmos, em favor do Reino.

  1. A guisa de conclusão:

Encerro esta reflexão com o breve relato do martírio da jovem Santa Águeda, de família nobre e convicção inabalável, que pela ousadia de sua fé, foi acolhida no coração de Deus para alegria eterna, no ano de 252, sendo uma protagonista da fidelidade e do amor a Deus, que dá sentido a nossas vidas, fazendo-nos novas criaturas.

De pouca idade ainda, Ágata consagrou-se à Deus, pelo voto da castidade. O governador Quintiano, tendo tido notícia a formosura e grande riqueza de Ágata, acusada do crime de pertencer à religião cristã, mandou-lhe ordem de prisão. Levada à presença do governador, este achando-a de extraordinária beleza, ficou tomado de violenta paixão pela nobre cristã, à qual se atreveu importunar com propostas indecorosas. Ágata, indignada, rejeitou-lhe as impertinências desavergonhadas e declarou preferir morrer a macular o nome de cristã. Começou então o martírio da nobre siciliana. Tendo-a citado perante o tribunal, apostrofou-a com estas palavras: “Não te envergonhas de rebaixar-te à escravidão do cristianismo, quando pertences a nobre família?” – Ágata respondeu-lhe: “A servidão de Cristo é liberdade e está acima  de todas as riquezas dos reis”. A resposta a esta declaração foram bofetadas, tão barbaramente aplicadas, que causaram forte epistaxe. Depois desta e de outras brutalidades a santa Mártir foi metida no cárcere, com graves ameaças de ser sujeita a torturas maiores, se não resolvesse a abandonar a religião de Jesus Cristo. O dia seguinte trouxe a realização dessas iniqüidades. O tirano ordenou que a donzela fosse esticada sobre a catasta, os membros lhe foram desconjuntados e o corpo todo queimado com chapas de cobre em brasa, e os peitos atormentados com torqueses de ferro e depois cortados. Referindo-se a esta última brutalidade, Ágata disse ao juiz: “Não te envergonhas de mutilar na mulher, o que tua mãe te deu para te aleitar?” Passados quatro dias, foi novamente apresentada ao juiz. Este não pode deixar de se mostrar admirado, vendo-a completamente restabelecida. Ágata disse-lhe: “Vê e reconhece a onipotência de Deus, a quem adoro. Foi ele quem me curou as feridas e me restituiu os seios. Como podes, pois exigir de mim que o abandone ? – Não – não poderá haver tortura, por mais cruel que seja, que me faça separar-me do meu Deus”. O juiz não mais se conteve. Deu ordem para que Ágata, fosse rolada sobre cacos de vidros e brasas. No mesmo momento a cidade foi abalada por um forte tremor de terra. Uma parede, bem perto de Quintiano, desabou e sepultou dois seus amigos. O povo, diante disto, não mais se conteve e em altas vozes exigiu a libertação da Mártir, dizendo: “Eis o castigo que veio, por causa do martírio da nobre donzela. Larga a tua inocente vítima, juiz perverso e sem coração !” Ágata voltou ao cárcere e lá chegada, de pé, os braços abertos, orou a Deus nestes termos: “Senhor, que desde a infância me protegestes, extinguistes em mim o amor ao mundo e me destes a graça de sofrer o martírio, ouvi as preces da vossa serva fiel e aceitai a minha alma”. Deus ouviu a voz de sua filha e recebeu-a em sua glória no ano 252[6].

O exemplo exorbitante da jovem Águeda seja para nós uma chave a abrir nosso coração, nossa vida, nossos virtudes e talentos para que nossa vida tenha um novo sentido e para que a bondade e o amor de Deus sejam através de nós reconhecidos!

O Senhor ressuscitou!

Aleluia! Aleluia!

Ele é a razão de nossa fé!

É à força dos mártires!

Por Ele ousamos viver; por Ele ousamos morrer!

[1] Trata-se de uma leitura bíblica de textos relativos à fé. A abordagem não tem pretensão dogmática.

[2]Documento de Aparecida. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. 2ª edição. São Paulo: Paulinas, 2007.

[3] Aurélio. Mini dicionário escolar da língua portuguesa. Rio de Janeiro. 4ª edição. Editora nova fronteira, 2000, p. 505.

[4] Grifo proposital, pois a fé e a Sagrada Escritura nos ensinam que a verdadeira liberdade nós encontramos em Cristo (Gl 5, 1; II Cor 3, 17).

[5] Esse testemunho pode ser notado aqui na comunidade Javé Nissi – www.javenissi.org.br – em um projeto chamado “Timóteo”, onde os jovens doam dois anos de suas vidas para formação e missão; bem como na comunidade palavra viva – www.palavraviva.com -, em Curvelo, onde tive a oportunidade de conhecer. A juventude é uma grande força que se levanta na Igreja, isto é notável principalmente nas novas comunidades.

[6] Acessado dia 14-11-13. Fonte:  http://www.paginaoriente.com/santosdaigreja/fev/agueda0502.htm.


 

Autor: Carlinhos Faria – Teólogo – Membro da Comunidade Javé Nissi

Comunidade Javé Nissi