Presença e atividade diabólica

Presença e atividade diabólica
  1. Considerações gerais

A primeira coisa a ser notada é que a atividade do diabo é sempre por um propósito maligno. Ele usa seu grande poder, que é ao de um ser humano, para fazer o mal por causa de seu ódio intenso a Deus e ao homem. Como o Papa Paulo VI observou: “O mal não é meramente a falta de alguma coisa, mas um agente efetivo, um ser espiritual vivente, pervertido e perversor. Uma terrível realidade. Misteriosa e assustadora” (Alocução “Livrai-nos do Mal”)

O diabo tem um terrível ódio por Deus e pelo que quer que Deus ame, especialmente seres humanos, e isto por várias razões:

Primeiro: o homem é criado a imagem e semelhança de Deus, e através do dom da graça santificante ele se torna o templo e morada da Santíssima Trindade.

Segundo: diferentemente do diabo, os seres humanos foram redimidos por Cristo, que se encarnou e deu sua vida para a salvação do gênero humano.

Terceiro: embora inferior ao diabo por natureza, o homem é um herdeiro do Reino do Céu e da felicidade eterna que o diabo perdeu como castigo através de sua própria e livre escolha.

Por isso São Paulo nos fala: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6. 11-12). E São Pedro diz: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge. buscando a quem devorar” (1Pd 5. 8).

Qualquer que seja o poder que o diabo tenha este só lhe é dado por Deus e uma vez que o diabo tem de reconhecer Deus como seu criador, ele gostaria de destruir Deus.

A respeito desta observação o teólogo Giovanni Papini faz o seguinte comentário:

O ódio do diabo não provém apenas de seu impulso de rejeitar a Deus, sua graça e sua soberania. Seu ódio cresceu, pouco a pouco, pela consciência de sua eterna sujeição ao Criador, mesmo após sua queda.

Se o diabo é agora um príncipe, se ainda é uma potência, se ainda tem algum domínio, isto é devido somente à vontade de Deus que por suas próprias e inescrutáveis razões, não aniquilou o diabo, mas lhe garantiu um reino e uma função. O reconhecimento de sua dependência de Deus enfurece o diabo. Ele não é capaz de ser grato…

Há no diabo um ódio profundo e secreto de beneficiário contra o benfeitor, de devedor contra o credor, e por isso um frenesi por matar, ou ao menos ferir o credor e benfeitor. Por esta razão ele tenta induzir o homem ao deicídio (matar a Deus) que significa, cometer aqueles pecados que são, de acordo com os teólogos, o equivalente ou uma tentativa ao deicídio. Por esta razão também o diabo colaborou na crucifixão no Gólgota e instigou as pessoas ao homicídio, que é a destruição de uma criatura de Deus de um ser criado por Deus feito à imagem e semelhança de Deus…

O diabo é o devedor furioso e vingativo que usa seres humanos em seus atentados para despojar e ofender aquele para o qual, mesmo em seu estado de condenação, ele deve tudo exceto seu ódio implacável…

Deus é amor; Satanás é ódio. Deus é criação perpétua: Satanás é destruição. Deus e Luz: Satanás é trevas Deus ê o precursor da felicidade eterna; Satanás e o portal da condenação eterna. (Papini, Giovani – Il diavolo, Firenze, 1953 citado por Corrado Balducci)

  1. Tipos de atividades diabólicas

Podemos dividir a atividade diabólica em dois tipos gerais: o diabo tanto induz indivíduos para o mal quanto ele mesmo faz o mal. O primeiro tipo de intervenção diabólica é chamado de “atividade diabólica ordinária”, porque é mais comum, embora não visível: o segundo tipo de “atividade diabólica extraordinária”, porque esta intervenção é muito rara, embora visível.

A atividade diabólica ordinária ocorre através da tentação pela qual o diabo incita os indivíduos a pecar. Obviamente, o diabo deseja desviar os seres humanos do bem e leva-los a fazer o mal.

A atividade diabólica extraordinária, por outro lado, pode ser dividida em três tipos: infestação local, infestação pessoal (também chamada obsessão ou opressão diabólica) e possessão diabólica.

Infestação local” refere-se a atividade diabólica que está em contato direto e imediato com objetos inanimados ou que usa plantas ou animais como meio da ação diabólica. Desta forma o diabo exerce sua influência maligna em seres humanos indiretamente ou podendo até mesmo infligir dano físico. Pode ocorrer de um certo lugar ou localidade tornar-se cena de atividade diabólica; ou pode haver, de modo inesperado, fenômenos estranhos afetando plantas, animais ou objetos inanimados.

A “opressão diabólica” (infestação pessoal ou obsessão) ocorre quando o diabo focaliza seu poder e atividade numa pessoa, mesmo a ponto de afetar o autocontrole e resistência desta pessoa, mas nunca a ponto de controlar seu intelecto e sua vontade. Algumas vezes, quando o diabo age sobre sentidos interiores ou exteriores ou sobre as paixões, o fenômeno pode ser classificado como uma tentação diabólica especialmente forte.

A “possessão diabólica” ocorre quando o diabo tem tal controle sobre um indivíduo que ele torna-se um instrumento cego e dócil de seu poder perverso e despótico.

Não há uniformidade entre os teólogos quanto aos termos usados para descrever os vários tipos de atividade diabólica. Muitos autores restringem a palavra “infestação” para a atividade diabólica num dado lugar ou localidade, e usam termos tais como “obsessão” e “possessão” para designar a influência do diabo sobre seres humanos.

A frase “infestação pessoal” parece mais correta do que “obsessão ou opressão”, porque este último termo possui uma conotação pessoal e subjetiva, como quando o psiquiatra fala de uma “idéia obsessiva” ou simplesmente uma obsessão. Mas quando nós falamos de influência diabólica numa pessoa, estamos referindo principalmente ao diabo como agente daquela atividade em particular; conseqüentemente, esta deveria ser a base de classificação para a intervenção diabólica.

Mas levando em consideração a prática mais comum que se faz do termo “opressão” nas orações pela libertação, preferimos usar a divisão entre tentação diabólica, opressão diabólica, e possessão diabólica.

  1. O poder do diabo

O diabo foi criado como um ser puramente espiritual e ele não perdeu sua natureza angélica quando tornou-se mau. Ele ainda possui poderes e potencialidades que são difíceis de imaginar. De fato, ele transcende o tempo e o espaço; ele não é condicionado, como nós somos, pela matéria, peso, medida, cor, som, etc. Ele não está sujeito ao cansaço, sono, alimentação, desejos sexuais, doença ou morte.

Conseqüentemente, a vida dos seres espirituais tem enormes possibilidades. Os anjos bons são inteiramente motivados pelo Amor de Deus e sua criação, incluindo a raça humana. Os anjos caídos, ao contrário, estão repletos de um terrível e perverso ódio a Deus e à criação, e especialmente aos seres humanos. Sem entrar em muitos detalhes, vejamos de maneira sucinta a extensão do poder do diabo.

  1. a) Uma primeira limitação

Como ser espiritual, ele não está localizado e limitado por qualquer lugar em particular como nós. O diabo está onde ele age (cf, São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, l, 8, 2. ad 1); e uma vez que não tem um corpo material, ele pode agir num dado lugar, mesmo sobre um corpo humano ou um objeto material. Além disso, porque ele não está limitado pelas restrições de espaço e tempo, ele pode instantaneamente transferir sua atividade de um lugar para outro, mesmo para um lugar muito distante. O mesmo é verdadeiro, é claro, para os anjos bons, uma vez que também são seres espirituais.

No que se refere à influência do diabo em seres humanos, que nos é de fundamental interesse, ele pode ter um contato direto e imediato apenas com o que é corpóreo, a saber, o corpo humano e seus órgãos e funções. Isto significa que o diabo é capaz de agir sobre nossos sentidos externos e internos e sobre qualquer órgão do corpo humano.

Ele não pode, contudo, tocar as faculdades puramente espirituais do intelecto e da vontade, exceto indiretamente através de algum sentido ou faculdade corporal.

Segue, por essa razão, que o poder do diabo não é ilimitado. Como ser puramente espiritual ele é muito superior aos seres humanos, que são compostos de corpo e alma, matéria e espírito. Mas, ao mesmo tempo, o diabo, como nós, é um ser criado e, portanto, finito, um ser limitado. Estas limitações serão determinadas por qualquer um dos três fatores: a natureza de um ser puramente espiritual, as características individuais de cada demônio, e a vontade de Deus.

Assim como a natureza angélica, o diabo é. como dissemos, um ser criado; portanto, ele é uma criatura finita com poder e ação limitados. Embora superior aos seres humanos, ele não pode transcender a natureza criada. Ele não pode, por exemplo, realizar milagres verdadeiros, porque por definição um milagre é algo que supera o poder de toda natureza criada. Isto requer poderes sobrenaturais e o poder do diabo é apenas “preternatural” (extraordinário, fora do comum, mas não sobrenatural).

São Tomás Aquino ensinou, Deus poderia usar o diabo, como faz com seres humanos, para ser um instrumento através do qual Deus realiza um verdadeiro milagre (cf. Contra Gentiles, 3, 103). A isso se deve acrescentar que quando o diabo realiza proezas de ordem “pretenatural” pode parecer para certas pessoas que tal fenômeno é um milagre, mas este não é o caso; é simplesmente algo que supera o poder humano.

  1. b) Uma segunda limitação

Uma segunda limitação do poder diabólico deriva das características individuais dos anjos. Duas pessoas não são semelhantes em muitos aspectos; cada personalidade humana é única; mas há uma diferença muito maior entre seres puramente espirituais. São Tomás Aquino explica isto ao dizer que cada anjo é especialmente distinto de todos os outros anjos, cada um é uma espécie única. A razão para isso é desde que não há nada material ou corporal em seres puramente espirituais, seu “princípio de individuação” ou distinção não pode ser como o nosso baseado na matéria. Deve estar baseado de alguma forma no grau de sua perfeição como ser espiritual e por esta razão podemos também admitir que existem anjos superiores e inferiores.

No caso de demônios devemos dizer que existem graus de malícia e maldade entre eles. Finalmente, porque os seres puramente espirituais são invisíveis não temos como saber com certeza qual a extensão de seus poderes, e qual sua posição na legião de demônios.

  1. c) Uma terceira limitação

A terceira limitação do poder e atividade do diabo provém da vontade de Deus. A Sagrada Escritura dá alguma indicação do tremendo poder do diabo: “Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada: afronta tudo o que é elevado, é o rei dos mais orgulhosos animais” (Jo 41. 24-25). Providencialmente ha esta terceira limitação que controla e restringe a atividade do diabo: a vontade de Deus. Desta maneira São Tomas Aquino diz: “O ataque diabólico em si deriva da má intenção dos demônios… Contudo a permissão destes ataques é devida a Deus, que sabe como usar o mal calculadamente de modo que seja voltado para os propósitos de Deus” (Suma Teológica, l, 114. l).

Por isso São Paulo nos tranqüiliza. “Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela” (1Cor 10, 13). Esta afirmação refere-se explicitamente ao limite divino imposto sobre as tentações diabólicas, mas implica também que Deus controla toda atividade extraordinária e toda intervenção do diabo, que é evidente pelo seguinte: “Pois bem, respondeu o Senhor: ‘Tudo o que ele (Jó) tem está em teu poder; mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa'”. (Jó l, 12).

Deus poderia certamente prevenir os anjos rebeldes de causar qualquer dano, mas em sua infinita sabedoria e bondade Ele lhes permitiu seguirem com suas más intenções. Então mais tarde, muito contra sua vontade, suas más intenções puderam ser transformadas pelo homem em estímulo e meio para a perfeição moral.

São João Crisóstomo disse: “o diabo, apesar dele mesmo, torna-se, como era, um instrumento e fator de santidade. Isto se ajusta bem na economia divina que, governando o mundo, é capaz de usar tudo – mesmo as piores coisas – para um bom propósito”.[1]

Além disso, a dependência do diabo, da vontade permissiva de Deus, é parte do governo universal de Deus sobre o mundo. “Deus protege e governa por sua providência todas as coisas que criou, ‘estende seu vigor de uma extremidade do mundo à outra e governa todas as coisas com bondade’ (Sb 8)”.[2]

O diabo pode fazer mal ao homem, mas apenas dentro dos limites da permissão de Deus São Tomás Aquino cita Santo Agostinho dizendo que há muitas coisas que os demônios poderiam fazer por causa de sua natureza, mas eles não podem por causa da proibição divina. Seria de fato terrível se Deus não restringisse sua atividade maligna.

Santo Agostinho disse: “Se o diabo pudesse fazer tudo o que quer, não restaria um único ser humano vivo na Terra”[3] E São Boaventura completa: “A crueldade do diabo é tal que ele nos devoraria a qualquer momento se o poder divino não nos protegesse”[4].

Esta é a condição dos demônios: possuindo poder para atacar muito fortemente e desejando muito fazê-lo, eles não têm permissão; eles são na verdade totalmente dependentes da vontade e permissão de Deus, a quem eles têm odiado mais intensamente. E para acrescentar à sua vexação e confusão, o pouco que podem fazer é sempre controlado por Deus para algum bom propósito.

[1] Gomes, C. Folch osb, Antologia dos Santos Padres – S. João Crisóstomo, Edições Paulinas – 1985

[2] Encíclica “Dei Filius” – Concílio Vaticano Primeiro, l869-1870

[3] Migne, P.J. – Patrologia Latina, Editorial Perpétuo Socorro – Portugal

[4] Gomes, C. Folch osb, Antologia dos Santos Padres – S. Boaventura, Edições Paulinas – 1985


 

Autor: Ministério de Formação Paulo Apóstolo

Comunidade Javé Nissi